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P. S. I Love You

(Quarta e última Parte)

Como dizia  o “filósofo” Odair José, “felicidade não existe o que existe na vida são momentos felizes”. Pois entre os momentos mais felizes da minha vida estão escrever para Paul McCartney  e receber aqueles envelopes pardos com suas fotos autografadas. Todos os fãs que conheço, e que escreveram para eles,  sentiram emoções parecidas com as que venho descrevendo, mesmo sabendo que as respostas vinham de secretárias,  ou dos pais de George. Mas será que eles realmente nunca nem tinham curiosidade de saber o que os fãs escreviam?   O filme “A Hard Days Night” mostra uma cena deles  imersos na leitura de cartas de fãs.  E foi editado um livro intitulado “ Cartas de Amor para os Beatles”.    Selecionaram as mais divertidas enviadas no ano de 1964. Aposto que leram o livrinho.

Postei  seis cartas ao todo sendo que no ano de 68 foram duas. Além da carta habitual no aniversário de Paul mandei uma por ocasião do Natal incluindo cartão para  Freda Kelly, a secretária. Ela respondeu agradecendo. Disse que fui a primeira fã a se lembrar dela.   deles-para-mimFreda participou do filme Magical Mystery Tour. Recentemente foi lançado  um documentário sobre sua dedicação total aos Beatles. Chama-se “Good ol’ Freda”. Era fã como nós e conseguiu o emprego dos nossos sonhos. O trabalho era intenso. Soube que recebiam cerca de cem cartas diariamente. Eles não tinham como ler tantas cartas assim.   Nem Freda  conseguiria sozinha. Tinha ajudantes.  Uma delas, a Anne Collingham,  é um caso especial.  Já no terceiro milênio chega a mim  uma informação vinda de outra ajudante: Anne  seria  o codinome  de uma delas. Porém o publicista Tony Barrow, tem outra história. Anne Collingham  nunca existiu realmente. Ele inventou  este nome para ser  usado por todas, exceto Freda.   Segundo ele os fãs poderiam estranhar tantos nomes diferentes, então optou por um nome único para todas as ajudantes. Outro artigo sobre o mesmo assunto  vem com algo inesperado. Não só revela que Paul  ocasionalmente  lia algumas das cartas, mas  também se responsabilizava  pelas respostas caso gostasse do que lia.   E quando assim o fazia usava as fotos com o nome da  fictícia  Anne no verso.from-them-to-me

Leio esta notícia  dizendo “ai” sem parar. – “O que aconteceu?, quer saber a minha mãe.  Conto a história  e completo: “Uma das fotos  que recebi  foi enviada por  Anne Collingham. Sei que pode ter sido uma das secretárias já que todas usavam o mesmo nome. Mas mamãe…e se foi ele?”

12 de março  de 1969. Ouço pela BBC, em estado de choque, a notícia do casamento de Paul. Ele concede uma entrevista.   Difícil ouvir o que fala devido ao coral ao fundo: gritos e choros das fãs inconsolaveis. Hoje podemos ver em vídeo que houve também alguns desmaios. Naquela noite fico repetindo sem parar:  “Não, não, não!’ Mamãe quer saber a razão do meu lastimável estado.   “Acabou,” é minha resposta. E ela. “ O que acabou?” – “O sonho, mamãe. O sonho! Paul se casou!”  Como podem ver, eu falei sobre o sonho acabado antes de John Lennon.

  Claro que meus irmãos caçoaram a mais não poder. Como éramos ridículas chorando, desmaiando, gritando…de pura inveja. Histerismo!. Não sabiam que o motivo era mais profundo, pelo menos no meu caso. Aquele ato impensado (para mim foi impensado!)   podia significar o  fim dos Beatles. Na minha cabeça passam estranhas indagações.  E se Paul ficasse tolo? Se virasse  um homem “casado” qualquer? Se desistisse de ser Beatle para ser pai de família? Não tinha dito antes,  para minha alegria,  que casamento era apenas um pedaço de papel sem importância? Como agora se casa assim de repente? .  Sentia-me  traída.  E se ela fosse possessiva,  daquelas  que se grudam nos maridos? Se ela o tomar de nós?  A Jane não se importava, mas eu poderia confiar na Linda? Então tomo consciência que George e Ringo tinham se casado e nada de mal tinha acontecido. E o John  já era casado quando tudo começou. Nunca nos incomodamos com isso. “ Posso estar vendo chifres na cabeça de  cavalo. Tomara…”       Não sabia que certa pessoa especial tinha sentido o mesmo choque: John. Soube do casamento por um convite. Empalideceu. Pediu logo uma caneta ao Mal Evans, riscou a palavra casamento escrevendo “Funeral” por cima. Dois dias depois tomou a decisão de também se casar o que aconteceu no dia 20, apenas oito dias após o casamento de Paul.  Isso ele não contou na sua “Balada para John e Yoko”.  Mas apesar do drama Paul esteve com ele nesta gravação tocando quase todos os instrumentos e fazendo harmonia vocal. George e Ringo não participaram. Estavam viajando e John tinha pressa sabe-se lá por qual motivo.14459796_10211456460346235_2137590142_n

-“Se Paul  agora está casado você não vai mais escrever para ele, não é?” pergunta  minha mãe.  Eu ainda não sabia, mas ela levava à serio aquele “namoro”.   Fico por alguns segundos sem saber o que responder. Por que não escreveria? Qual o problema? Procuro resposta na alma. Sinto um triste vazio, um pressentimento de algo nada agradável.   E respondo:  “Vou escrever pela última vez cumprimentando o casal. E pronto.”

   E assim, melancolicamente, coloco  fim à correspondência. No ano seguinte, ao se aproximar a data do aniversário de Paul, quando eu estaria  preparando nova cartinha,   recordo esta conversa com minha mãe e entendo o sentido do vazio. Não mais havia fan club, não mais havia secretárias,  não mais havia The Beatles.  Não foi pelo casamento,  embora eu tenha sentido o fim naquele dia.  Forças ocultas, como diria o presidente Jânio Quadros, ocasionaram  aquela trágica separação.  Nem sonhava   que , no século seguinte,  teríamos a Internet  e seria possível  mandar mensagens para Paul  diariamente pelas redes sociais.   Visito sempre seu Facebook . seu Twitter e sua página oficial.  Visito,  deixo recados, faço comentários…  Mas em 69  era diferente.   Naquele  12 de Março  dou um suspiro fundo e volto a dizer: “Acabou”.  Que dor.

withloveDia seguinte os jornais trazem a notícia do casamento. Hora de escrever a última carta. Decido que seria enviada, pela primeira vez, para Londres.  Seguiria direto para sua residência em Saint John’s Wood, Cavenish Avenue, número 7. Tinha visto o endereço com foto da mansão na revista Cláudia.  Eu sabia que ali não teria Freda Kelly,  mas  não fazia questão de resposta. Não estava pedindo fotos autografadas.  Queria mais chances de ser lida.  Pego o bloco, a caneta, e escrevo o início da música “A Day in a Life”:  “I read the news today oh boy!”    E agora? Pausa. Penso, penso, penso e escrevo: “ And thought the news were rather sad.”  O que?  Não poderia escrever aquilo. . “ Li a notícia hoje …E achei  muito triste.”  E se eu me explicasse? Então prossigo  pedindo   que não levasse a mal. É que não deu para resistir. Era a letra da música!  Eu  queria apenas  cumprimentá-lo pelo casamento, desejar a ele tudo de bom.   Falo sobre o coral de choro que ouvi pelo rádio, que gostei dos  convidados adoráveis:  cachorros e um gatinho.  Explico  o significado da palavra Linda em português.  Eis como terminei a última carta, e que, como eu sabia, nunca foi respondida.

“ You may not know but Linda in Portuguese means “beautiful”.

Yours truly,

Virginia

P. S.  I still love you.

Virginia A. de Paul(a).

Membro do Instituto Histórico Geográfico de Montes Claros e da Academia Feminina de letras de Montes Claro

 

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