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Há meio século, as aventuras e desventuras dos Beatles na Ásia

“Sonoridades” desta semana mostra as aventuras (ou desventuras?) dos Beatles na Ásia, registradas em histórias e imagens no mínimo incomuns. Há exatos 50 anos os Beatles, no auge da fama, foram hostilizados no Japão e enxotados das Filipinas aos empurrões e pontapés por terem, segundo as versões oficiais do governo da época, “esnobado” a então primeira-dama Imelda Marcos, mulher do ditador Ferdinand Marcos. Os Beatles não compareceram a um almoço organizado por ela e, literalmente, tiveram de fugir do país. Na volta a Londres, pararam em Nova Deli, Índia, onde nunca tocaram, mas foram bem recebidos. George Harrison aproveitou para comprar sua primeira cítara de qualidade.

Ringo com o anel cobiçado por um grupo de fanáticos, numa das cenas de Help!

Ringo com o anel cobiçado por um grupo de fanáticos, numa das cenas de Help!

O primeiro contato de George Harrison com uma cítara aconteceu em 1965, durante as filmagens de Help!, logo depois de uma cena em que os Beatles almoçavam em um restaurante indiano. Concluída a tomada, na qual integrantes de uma seita tentam pegar o anel cerimonial de Ringo Starr, os músicos que tocavam ao fundo deixaram seus instrumentos de lado e George e Paul foram ver como eles funcionavam.

arrivePrimeiro ‘riff’ – George interessou-se pela cítara. Rodou por Londres até encontrar uma para comprar, mesmo sendo de qualidade inferior. Em dezembro do mesmo ano, a banda lançou o álbum Rubber Soul e já na segunda faixa, Norwegian Wood, estava o primeiro riff de cítara indiana nopop rock.

Coincidência ou não, os Beatles voltavam suas atenções (ainda comerciais) para a Ásia. Às 3h40 do dia 30 de junho de 1966, vestindo curtos quimonos da empresa aérea JAL, a banda desembarcava no aeroporto de Haneda, em Tóquio, onde tinham apresentações até o dia 2 de julho. Os shows foram bons, mas havia tensão no ar.

Lutas – Zelosos de suas tradições milenares, muitos japoneses conservadores não aceitavam a ideia de o Nippon Budokan (o ginásio sediava lutas de sumô e era uma espécie de santuário dos mortos na guerra) servir de palco para uma banda de rock.

slide_494766_6842490_compressed-1Houve protestos em várias cidades do país. Não faltaram ameaças de morte por telefone. Nas ruas, faixas mandavam os Beatles voltarem para casa. Para evitar distúrbios, um contingente de trinta mil policiais foi mobilizado e a banda inglesa foi proibida de deixar a suíte presidencial do Hilton Tokyo, exceto para tocar.

HQ – É bem verdade que hoje o Budokan é uma das principais casas de concertos do Japão e que neste mês os 50 anos da passagem dos Beatles pelo país foram comemorados festivamente.

Uma das homenagens, bem ao estilo japonês, foi uma curta HQ, de apenas três páginas, produzida pelo quadrinista Naoki Urasawa, que imaginou os Beatles atualmente, com John e George vivos, de volta a Tóquio para uma nova apresentação no mesmo Budokan.

Don Manolo – Se houve tensão em Tóquio, esperem pela próxima parada: Manila, capital das Filipinas. No dia 3 de julho a banda deixou Tóquio e depois de uma escala para reabastecimento em Hong Kong pousou em Manila para duas apresentações no dia 5.

Sabedores do grande esquema de segurança que fora montado pelos japoneses, os filipinos também prepararam o seu, mas foram truculentos.

Tão logo o avião pousou, policiais bruscamente separaram os quatro músicos do resto da equipe e os colocaram em uma limusine, deixando o empresário Brian Epstein, o secretário Neil Aspinal e o faz-tudo Mal Evans, além das bagagens, para trás.

stage1-300x217Drogas – O carro seguiu para o  QG da Marinha filipina, onde concederam uma entrevista. De lá, os Beatles foram colocados em um barco militar e levados até o iate de don Manolo Elizalde, um milionário filipino que passou o resto do dia exibindo os músicos como um troféu a um seleto grupo de amigos ricos. No iate ancorado na baía de Manila, uma segurança reforçada, com soldados armados e em uniformes de combate.

Cansados dos shows em Tóquio, da viagem com escala até Manila e da tensão da chegada, os Beatles só foram dispensados depois de muitas manobras de Epstein, por volta das 4h da manhã do dia 5, quando a banda faria duas apresentações no Rizal Monumental Stadium. Nos quatro beatles, uma preocupação a mais: suas malas pessoais. Se elas fossem abertas por alguma autoridade, eles estariam em apuros, pois nelas carregavam uma boa quantidade de maconha. Ninguém, porém, tocou nas malas, que ficaram de posse de Neil Aspinal.

Almoço – O pior estava ainda por vir. Sem que ninguém da produção dos Beatles soubesse, Imelda Marcos, mulher do ditador filipino Ferdinad Marcos, então no auge do poder, organizara um almoço para 300 convidados (a maioria filhos de militares) com o objetivo de apresentar os quatro beatles a eles. Seria um grande encontro promovido na sede do governo, o palácio Malacanang, pela mulher que chegou a ter três mil pares de sapatos em seu closet.

Chegada a hora do almoço, como os músicos não chegavam, policiais foram buscá-los no hotel. Como não sabiam de nada e estavam exaustos, todos dormiam. A polícia então topou com Brian Epstein. O empresário da banda foi firme e disse que ninguém iria a lugar nenhum, já que pouco tempo depois os Beatles teriam duas apresentações a fazer para pelo menos 50 mil pessoas. De fato, em Manila, a banda teve o segundo maior público de sua história, superado apenas pela audiência no Shea Stadium, em Nova York, que em 15 agosto de 1965 reuniu 55.600 pessoas.

Incidente – A ausência dos Beatles no almoço de Imelda criou um incidente diplomático, já que Epstein recusou-se a despertá-los. Recordando-se do dia anterior, quando os Beatles foram praticamente sequestrados, disse que ninguém seria humilhado novamente e que tudo deveria ter sido combinado com antecedência.

Foi o que bastou para que os meios de comunicação filipinos iniciassem um massacre contra os Beatles, acusando-os de terem esnobado a primeira dama. Imediatamente, o serviço de quarto do hotel foi suspenso e a segurança toda desmobilizada.

Os jornais vespertinos foram cáusticos em suas manchetes e diante de tanta pressão Brian Epstein convocou uma entrevista para justificar a ausência da banda no almoço. Nada feito. A entrevista foi transmitida pela TV local, mas sem som. Ao mesmo tempo, Ramón Ramos, promotor dos shows, recusou-se a pagar a banda que acabara de fazer dois shows. Ao voltarem ao Manila Hotel, foram alertados sobre ameaças de bombas. A saída era deixar Manila o mais rápido possível.

Impostos, socos  e Bong Bong – Sem ajuda para transportar todo o equipamento de som e os instrumentos, os próprios Beatles e equipe tiveram de carregar os carros e correr para o aeroporto, onde um voo da empresa holandesa KLM os levaria para Londres, com escala em Nova Deli, na Índia. No caminho, gritos de “Beatles go home” e muitas ofensas. Ao chegarem ao terminal Misael Vera, o responsável pelo Escritório de Rendas Internas disse que ninguém deixaria o país antes de pagarem os impostos que supostamente estariam devendo. Para evitar mais problemas, Epstein não discutiu e pagou de seu bolso o equivalente a US$ 18 mil.

O caminho até a aeronave foi outro susto. Cerca de 300 pessoas fizeram uma espécie de corredor polonês e Ringo foi o mais atingido. Levou cusparadas, um soco no rosto, caiu na pista e foi pisoteado. Os outros três beatles conseguiram se esquivar atrás de um grupo de freiras e só ouviram palavrões. Pouco antes de entrar no avião, uma última agressão: Bong Bong, o único filho homem da família Marcos, tentou socar um dos beatles. Não teve sucesso, mas proferiu uma frase que deve ter julgado ofensiva: ‘Eu gosto mais dos Rolling Stones”.

Enfim, a Índia – Faltava muito pouco para o avião da KLM partir quando autoridades filipinas entraram na aeronave e disseram que havia problemas com os passaportes dos Beatles e que eles teriam de esperar até que tudo fosse solucionado. Mal Evans e Neil Aspinal desceram para resolver as alegadas pendências e Epstein ficou a bordo tentando convencer o comandante holandês a retardar a partida. Finalmente, tudo resolvido, os Beatles partiram para Nova Deli, onde foram bem recebidos. Imaginavam que ninguém os iria reconhecer. Enganaram-se.

Chegaram à noite e ao lado da pista, atrás de uma cerca, já havia um grupo de pelo menos seiscentos indianos gritando “Beatles! Beatles!” A rigor, apenas George ficaria em Nova Deli. John, Paul e Ringo seguiriam para Londres. Mas, de repente, um novo contratempo. Na pressa de sair das Filipinas, não se deram conta de que as passagens dos quatro só previam o trecho Manila-Nova Deli. Nada de Londres. Tudo bem, estavam em solo amigo.

Nova cítara – Desceram, pegaram as bagagens, entraram em um carro e foram seguidos por pequenas scooters até o Oberoi Hotel . “Rostos morenos, sikhs com turbantes, todos atrás de nós dizendo ‘Ei, Beatles’. As raposas têm suas tocas, as aves têm seus ninhos, mas os Beatles não têm onde reclinar suas cabeças”, disse George.

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Dramalhão à parte, os quatro beatles tiveram uma curta mas boa e civilizada estada na capital indiana. Foram bem assessorados, puderam caminhar pela cidade, tirar fotografias e visitar luthiers de quem compraram uma cítara e uma tambura (ou tanpura), instrumentos típicos da música clássica indiana.

Revolver e Sgt. Pepper’s – De volta a Londres, George usou seus novos instrumentos em dois álbuns: Revolver, na música Love You To, de agosto de 1966, e em Sgt. Peper’s Lonely Hearts Club Band, na música Within You Without You, de junho de 1967.

Fonte: Estadão

2 Respostas para “Há meio século, as aventuras e desventuras dos Beatles na Ásia

  1. Esta história das Filipinas…Imagino que vão falar a respeito no documentário que sairá em breve. Porque até hoje não se sabe ao certo o que houve. E cada matéria tira uma coisa e coloca outra. Li recentemente que o problema foi causado pelo contratante. O cara que os contratou. Ele sabia do almoço. Os Beatles não podiam ir porque tinham o show a ser feita naquele mesmo dia e tinha de checar o som, essas coisas. Mas ele morria de medo do Ditador Marcos. Não teve coragem de dizer que os Beatles não iriam. Chegaram a mudar o horário para 11 da manhã, mas ele não avisou aos Beatles. Parece ter achado melhor que a culpa recaísse sobre os Beatles. Saiu na TV que eles iriam e John teria dito que de forma alguma. Já pensaram? Viraria algo político. Uma foto dos Beatles com o ditador poderia ser usada de forma que eles não aceitariam. Sem contar que grande parte da população detestava o Marcos e a imagem dos Beatles poderia ser prejudicada como amigos de um ditador. Brian teria chegado a ligar para a embaixada querendo saber como resolver aquele problema.
    Achou que tinha resolvido ao dizer que não poderiam comparecer devido aos shows. Que seria entendido. Mas não sabia que tinham mudado o horário para mais cedo. E parecia que não teria problemas porque os shows foram excelentes, um grande sucesso. Mas…a mão que afaga é a mesma que apedreja. No dia seguinte ao saberem que tinham esnobado a primeira dama e mais 300 crianças que ficaram esperando por eles uma multidão organizada pelo governo fez o que fez. Na matéria que li ainda em 1966 diziam que Ringo foi o único poupado. E aqui falam que foi o que mais apanhou. Teriam dito: “Ringo é simpático, não batam nele”. Eles nunca deram detalhes. John piorou as coisas ao dizer que não poderiam ter ido porque nem sabiam que aquele lugar tinha governo. E George foi mais violento, dizendo que gostaria de jogar uma bomba atômica sobre eles. Paul é que se comportou de forma inusitava. Já dentro do avião ficava acenando e mandando beijos para a multidão. Mandem ódio que respondo com amor. Mas não sei se é verdade porque cada reportagem diz uma coisa diferente. Primeira vez que vejo falar sobre maconha na bagagem. Eu tenho dúvidas. Naquele tempo eles tinham um empresário muito zeloso. Sabia bem que se fosse encontrada eles estariam liquidados. Ele não teria consentido. Paul é que , muitos anos depois, cometeu o erro impressionante de querer entrar no Japão carregando haxixe. Até hoje não entendo a dele. E quase pegou 8 anos de prisão. Detalhe importante: A primeira dama foi a TV no mesmo dia informar que não tinha sido esnobada e que realmente eles não sabiam do almoço. E aí tudo se acalmou, mas já tinham passado pelo sufoco. Meu irmão, muito engraçadinho, veio me contar no outro dia que os Filipinos tinham mandado uma mensagem em música para os Beatles. E eu acreditei. Perguntei qual música. Meu irmão então cantou: ” Vem cá Beatles, vem cá Beatles, vem cá Beatles vem cá.” E eles responderam. “Não vou lá, não vou lá, não vou lá, tenho medo de apanhar.”

  2. Quero comentar mais uma coisa: é que logo depois deste drama ( imaginem o medo que sentiram), eles enfrentaram algo ainda pior nos Estados Unidos onde queimaram seus discos e fotos em grandes fogueiras nas ruas. E eu pergunto: alguém conhece alguma outra celebridade musical que tenha passado por tudo isso no mesmo ano em pouco tempo? Eu nunca ouvi falar. Parece até um complô mundial contra eles. E ainda há quem não entenda por que pararam de excursionar. E há também aqueles que não percebem que eles eram muito mais do que uma banda de rock. Se não representassem algo bem maior não causariam tal reação por uma frase fora do contexto, por cantarem num local sagrado, ou por não comparecem a um almoço. Eles incomodavam os “donos do mundo”. Eles revolucionavam. Até a Ku Klux Klan entrou no meio contra eles. Estes loucos não entrariam nessa se não vissem o potencial revolucionário deles. Ficou uma coisa muito linda feita no Japão: uma pintura a quatro mãos que criaram para passar o tempo já que não podiam sair do hotel por segurança. Ah os Beatles, nunca houve nada igual. São …únicos.

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