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P.S. I love you.

Segunda parte.

Numa linda manhã ensolarada  vou até a distribuidora  Thais  onde compro  o guia de  TV chamado “Intervalo”. Volto para casa folheando a revista. Surpresa!  Nela  vem os endereços dos Beatles para envio de cartas.  Quatro endereços. Leio e repito como num sonho: “20 Forthlyn Road, Allerton…”  E agora? Sem saber inglês, como escrever?

Levo a revista para a escola a fim de mostrar a novidade a Leiloca. “-Me dá aí o endereço de George. Mrs Graet escreve  para mim.” – “Mrs quem?”  -“Graet. A inglesa que mora com minha avó em Belo Horizonte.”  Eu tinha passado as férias em casa dela no ano anterior e não tinha visto inglesa alguma. –“ É que ela estava na fazenda  em Diamantina.”

Resolvido o problema. Ela passaria minha carta para o inglês. O mais difícil: o que escrever?   Tomo um banho perfumado, ligo o toca disco e seleciono especialmente “And I love her” buscando inspiração.   Fecho os olhos ouvindo a música. Acho as palavras. Falo do tanto que gosto dele e dos Beatles.  Tanto, tanto, tanto!  Peço  uma foto autografada.  Depois de assinar meu nome eu acrescento. –“P.S. I love you”.  Tinha aprendido com eles!

Entrego a carta para Leila tomar as providências de enviá-la até Belo Horizonte. Poucos dias depois a recebo na língua inglesa. Mil dúvidas na hora de escrever.  Que papel usar?  Colorido? Passar ou não passar perfume no envelope? Acabo  usando folhas de bloco comum. Branco.  Escolho também um envelope branco.  Respiro fundo. Que caneta usar? Tinta vermelha, preta ou azul? Preta. Mais chique. Levo quase uma hora escrevendo, desenhando a letra, lamentando ter péssima caligrafia.  Finalmente termino.  Longo tempo olhando a carta em transe. Cubro o papel de beijos. E de perfume, claro!

Consigo me comportar nos correios  apesar da emoção. Vou colando os selos  cantarolando  … “I‘ll send you all my love every day in a letter sealed with a kiss”. Entrego a carta fazendo um pedido ao universo: “Que venha uma resposta.”   Mesmo sabendo que, com certeza, viria de uma secretária.

Chegam as férias.  Novo convite de Leila para passar alguns dias em casa da sua avó. – “Melhor  no final  do mês para você conhecer  a Mrs Graet”. Aceito. Conosco também vai a prima Maria da Graça.

Mrs Graet. Uma inglesa típica parecendo a atriz Margareth Ruthford que fazia o papel da Ms Marple  no cinema.   Cabelos bem branquinhos,  rosto cor de rosa, olhos azuis. E vestida com roupas pesadas de frio,  como se morasse na Inglaterra. Fazia anos tinha vindo para o Brasil e se bem entendi, trabalhava no Consulado. Ou seria na Cultura Inglesa? Tinha sido casada.   Agora estava viúva.  Seu português ainda era fraco.  Sotaque forte e misturando inglês o tempo todo. Assim que fomos formalmente apresentadas (e eu esnobei dizendo “How do you do?”)   ela disse para mim.  –“Então você é a moça da carta para o Paul McCartney. Já respondeu? He will.  He is  an Englishman.”

Certa noite  engata longa  conversa comigo, em inglês,  enquanto toma seu Whisky.   Eu sem entender praticamente nada , mas ouvindo deliciada e tomada de emoção por estar  conversando com uma inglesa…que  não sabia bem ser inglesa ou escocesa. Tinha nascido  na fronteira dos dois países.  Entendo a palavra Scotland.  E Liverpool.  Conhecia a cidade dos Beatles?  Ouço tudo com interesse. De vez em quando balanço a cabeça dizendo –“Yes, yes”. Ela prossegue…  –“horses… farm…rain…”  “Deve estar falando que tem cavalos na fazenda do seu “marida”    em Diamantina”, penso eu.  De repente diz algo incompreensível que termina com a seguinte pergunta: — “Would  you like it?”  Fácil de entender . Se eu gostaria…De que mesmo? Respondo que sim, “Of course”.  Ela levanta e vem trazendo o jornal “The Times” para mim.  Ainda bem que eu sabia falar “thank you”.  Diz qualquer coisa sorrindo terminando com “Good Night”.  “Good Night, Mrs Graet”,   respondo encantada.

Vou dormir no sétimo céu. Tinha uma amiga inglesa! Chego a imaginar que estava na Inglaterra.  Dia seguinte a ilusão se torna mais forte ao sentar na sala “lendo” o “The Times”. É quando  a ouço dizer que a hóspede sabia inglês muito bem. –“Conversamos muito ontem. Lovely girl”. Tenho de prender o riso.  Eu não tinha dito quase nada. Tinha apenas escutado.  Pois ela nunca mais conversou comigo em português. E  sem se dar conta que eu nada entendia.  Leila e Maria da graça rolavam de rir sempre que me viam toda séria falando “Oh  Yes!” Num dos bate papos consigo entender perfeitamente bem quando ela diz:   -“So you like The Beatles”  -“Yes, I do.”  -“They are from Liverpool. Good boys.” – “Oh, Yes”.

No sábado pela  manhã  compro o disco Beatles 65. Ainda não sabia que os discos brasileiros eram diferentes dos ingleses. Hoje sei que o original se chamava “Beatles For Sale” e a seleção musical não era exatamente igual.  Até a capa era  diferente e bem mais bonita que a escolhida pela Odeon.   Essa diferença deixa de existir a partir de “Rubber Soul”.

Não havia radiola  na casa. Teria  de esperar para ouvir o disco completo ao retornar. Porém havia rádio. Leila descobre um programa mostrando algumas das músicas novas. Uma delas, “8 days a Week”, eu já sabia cantar. A letra tinha saído na Revista do Rock.  Solto a voz. “Uhh I need your love, girl”… Mrs Graet entra no quarto nesse momento  trazendo para nós um Daikiri feito por ela. Era boa nos cocktails. Fica olhando para mim surpreendida, -“You can sing in English too.” Eu me entusiasmo… “8 days a week, I looooove you. 8 days a week, is not enough to show I care…” Leila: – “Agora ela  vai achar que você domina o inglês. Não é justo. Você sabe tanto quanto eu. Isto é: nada. Você está enganando a Mrs Graet”. –“Não exatamente. Eu estou aprendendo…estou melhorando.  Se eu pudesse ficar  mais tempo voltaria  pra casa falando inglês.”  Fico então sabendo que a cozinheira estava aprendendo  de tanto ouvir palavras soltas  o dia inteiro. “Mrs Great, toma sou coffee. Vou buscar o sugar.”  Bem assim.

Chega o dia de vir embora.  Ouço ela  comentando  com Dona Moça, a avó de Leila. –“Vou sentir falta dela. Ela sabe inglês.  Não precisava de mim para a carta!” – “Leila  disse que ela não sabe nada não”, diz Dona Moça. E completa: -“ Ou então entende, mas não sabe escrever, ou queria uma coisa mais caprichada…” Eu tinha ficado algumas horas ensaiando uma despedida, mas sem a menor confiança no “meu taco”. E agora eu teria de falar que também sentiria saudades.  Saberia como?  Cheia de coragem vou logo dizendo:   “I will miss  you too. Thank you for translating my letter to English”. Não é que soube falar até direitinho? – “Not at all”, responde ela com um sorriso. Saio de lá  quase chorando… – “Good bye”.

With Compliments

Setembro. No fim da tarde chega meu pai com envelope pardo na mão. – “Uma carta para Virgínia vinda da Inglaterra. Liverpool. De quem será?”  Sentiram?  Não vou conseguir passar o que senti! Os fãs entenderão. Preciso sentar para abrir o envelope com cuidado.   Vejo logo  a maravilhosa foto autografada. E perfumada!  Paul, Ringo, George e John! Até mamãe se emociona. Logo todos da casa querem ver. Entrego a foto morrendo de medo de algo acontecer.  –“Cuidado. Ai, meu Deus…” Junto vem um cartãozinho azul claro escrito: “The Beatles. With Compliments. Freda Kelly. Northern Fan Club Secretary.” Endereço diferente do que enviei. Fico já pensando qual usar quando escrevesse novamente. Porque com certeza eu escreveria de novo. Começo a devanear.   Volto à realidade ao ouvir a voz do meu irmão, na cidade devido ao 7 de setembro, dizendo:  – “Ele nem deve ter lido sua carta, Virgínia”. Eu respondo:  –“Isso não sabemos.  Claro que tem secretária. Sabe quantas cartas recebe por dia? Mas  não significa que nem viu. E sabe de uma? Não tem importância! Veja que foto linda! Por aqui dá para ver que eles não são desse mundo.”  Vou ficando empolgada, falando alto… –“ Minha carta, mamãe…Saiu daqui! Foi até Liverpool! E a foto veio de lá para mim!  Eu vou chorar”. E caio no choro mesmo.  Meu pai me surpreende. –“Ela tem razão. É para ficar emocionada mesmo. Viu o outro papel?” Outro papel?  Sim, tinha outro dentro do envelope que eu ainda não tinha visto.  Um cupom para assinatura de um jornal chamado “Music  Echo”.  –“Se você quiser posso te dar a assinatura de presente”.  Ai meu Deus. Que paizão. Aceito na hora.

escaneado

Agora é ligar para  as amigas contando a novidade. Todas reagem da mesma forma: gritos. Decido ir até a casa das  primas levando a carta. Vou seguindo quase flutuando, em  estado de graça  e cantando: “ I’ll be coming home again to you love, until the day I do love,  P. S. I love  you…you you you… I love you!”

(Aguardem a terceira parte).

Virginia A. de Paul(a)

8 Respostas para “P.S. I love you.

  1. Solange Gassi

    Virginia, eu também fazia isso…!! Passava longas tardes caprichando no inglês pra mandar as cartas pros Beatles, uma delas foi toda escrita utilizando os nomes e letras das músicas!!
    E depois aquela loga espera, até o dia em que o carteiro trazia o famoso envelope pardo com as tão sonhadas fotos autografadas!!
    Só quem viveu isso pode saber o que era aquela emoção que sentíamos!
    Beijos, adorei mais esta crônica!!
    Solange Gassi

  2. virginia Abreu de Paula

    Ei Solange…Seu comentário saiu sim! Que legal. Gostaria de ler sua carta…Deve ter ficado sensacional usando as letras das músicas. Eu usei apenas o P.S. I love you! Obrigada por vir até aqui e por comentar. Muito importante para quem escreve ler os comentários.

  3. Cláudia Cardoso

    Que delicioso tempo de sonhos você vivenciou com esta paixão! Vivencia até hoje. Algumas emoções são para sempre!
    Parabéns pelo belo texto!

  4. Ótima crônica! Me fez voltar no tempo e em seguida retornar ao presente, pois atualmente tenho uma garotinha apaixonada pelo One Direction e fiquei imaginando como ela adoraria receber uma carta perfumada do Harry Styles. O tempo está passando, mudou a banda, mudou a música, mas as pessoas continuam as mesmas. Por isso não posso criticar One Direction, nem quando os comparam (Aaaarrgh!) com os Beatles.

  5. virginia,eu fiquei com os olhos cheios dágua,a emoção que sentiste ,senti aqui depois desses anos todos,sou beatlemaniaco desde 63,quando ouvi no radio,she love´s you yeah yeah yeah,mudou minha vida,hoje falo ingles por causa deles,toco,guitrra,baixo e bateria ,por causa deles,me fizeram crescer como pessoa e sou agradecido,queria te passar um pouco da minha emoção,abraços querida

    • Obrigada a todos vocês. Que bom ler seus comentários. É Jarbas, chegam novas bandas e os garotos tem todo o direito de apreciarem os novos. Eu me lembro das minhas sobrinhas loucas pelos Menudos. Nâo critiquei nenhuma delas…Até comprei o disco deles para uma delas de presente de aniversário. Também não critico quem gosta de One Direction. Mesmo porque eu também sou fã de outros músicos. Porém, há uma diferença. Todos os outros são apenas bandas, ou apenas cantores. Minhas sobrinhas gostavam do Menudo como membros de uma banda. Elas não foram afetadas por eles em suas vidas. Não sei quanto às meninas que curtem New Direction, mas acho que é semelhante, pois do contrário, a esta altura a banda inglesa já teria chegado até aos adultos e já teriam causado alguma revolução cultural e comportamental. Eu só conheço os Beatles que fizeram isso. Olha aí o depoimento do José Roberto. Ele cresceu como pessoa! Fala inglês por causa deles, toca vários instrumentos por causa deles. Ei José Roberto, que bacana! Eu acredito que em uma ou outra coisa há influência em algumas pessoas. Com certeza alguém se tornou dançarino por causa do Michael Jackson, por exemplo. E os Beatles se tornaram Beatles por causa de Elvis. Mas a intensidade faz a diferença. Os Beatles chegaram nos corações mudando não apenas o comportamento de um ou outro. Foi geral! Entraram nos corações de crianças e idosos de todos os estilos de vida. Foram muito além da música. Lembro de uma prima minha dizendo o seguinte, logo depois de ouvir “Fool on the Hill”. “Além de tudo ainda cantam.” Isto é, a música nem mesmo era o mais importante. O mais importante era aquela coisa indefinida, aquela emoção que vibrava no ar, e por mais incrível que pareça, ainda vibra! Muitas vezes quando ouço uma de suas músicas, parece que estou ouvindo pela primeira vez. Eles espalhavam…Amor! Foram os arquitetos do Sonho. Queríamos ser pessoas melhores…influenciados por eles. Eles mudaram o modo de vida das pessoas até no visual. Os homens ganharam o direito de serem cabeludos! Para sempre. Se hoje os garotos do One Direction são cabeludos, agradeçam aos Beatles. Grande parte do mundo descobriu a cultura indiana através dos Beatles. A meditação pegou! Eles a divulgaram e de repente, todos queriam aprender. Eu fui uma delas. Entrei até para a Yoga. Hoje fazem parte da História! Estão nas enciclopédias, nas matérias escolares. Ah, eles são únicos. Apenas quem não sentiu a Beatlemania e não conhece o impacto que causaram na sociedade, pode pensar em compará-los com outras bandas. Porém discordo que os meninos do One Direction sejam sem talento, que não valham nada. Eles tem talento sim. E possuem seu próprio estilo. Acho muito natural que tenham tantos fãs. Sua menina pode receber a carta! Deve haver um endereço para isso, algum fã clube. Procure..Que ela sinta esta emoção:) Mas devo esclarecer que o perfume é o que vem sempre em qualquer papel inglês. Eu o considero como perfume. É bem diferente do papel brasileiro.

  6. José Roberto, você me emocionou também. Fico muito feliz ao ouvir relatos como o seu, ao ver que todos receberam tanta coisa positiva dos meninos de Liverpool. Como eu disse acima, apenas eles causaram tanta emoção em bloco! Outros causaram numa ou outra pessoa. Os Beatles mexeram em nossas entranhas…com amor.

  7. Cláudia, obrigada por ter apreciado, por ter vindo comentar. . Emoção forte, menina. A mais forte que já senti na vida. Nada se compara.

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