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Yeah, yeah, yeah.

1965. Sentada no alpendre no fim da tarde, vendo o sol se por, esperando pela primeira estrela, ouvindo  a Rádio JB ou Tamoio, eu sonhava.  Acreditava que realmente tudo seria melhor no ano seguinte. Terminaria o curso de formação de professora, um curso que fazia por falta de opção. Na verdade eu tinha escolhido o curso científico, mas meu pai não achou boa ideia. Não era profissionalizante. Apenas preparava para o vestibular. Já o curso formação dava direito ao vestibular e me deixava com um diploma de professora no seu término.  Parecia ser realmente melhor, se não fosse  por dois detalhes. Sem física nem química as chances de passar no vestibular eram bem menores. Nem tinha inglês no terceiro ano. E era chato pra caramba. Uma tortura aquelas aulas de didática, de estatística, de psicologia educacional.  Uma boa  matéria seria Filosofia, se a professora comparecesse às aulas.  Tínhamos lutado para que fosse Filosofia pura, e não da educação, como nas outras turmas. Vencemos. Mas…as aulas não aconteciam. A única matéria de algum interesse nada tinha a ver com magistério: Higiene e Puericultura. Pelo menos aprendíamos o que o nome indicava. Além disso o professor era excepcional: Hermes de Paula, que acontecia ser o meu pai.  Ninguém dormia em sua aula. Sempre interessante, animada e até gostosa. Ele nos ensinava a preparar  mingaus para nenês…Todas ali queriam se casar, ser mães…menos eu.   Tirando fora essa matéria, tudo mais me parecia um suplício. Acreditando haver equilíbrio no mundo, concluí que algo de espetacular teria, obviamente, de acontecer comigo para compensar. Eu já até sabia o que seria:  conhecer os Beatles, claro. Teria de ir para a Inglaterra, não tinha jeito.  Já sabia disso desde  criança. Aos 11 anos, após ver um filme passado em Londres, eu senti que aquela cidade era meu destino.  Aos 3  eu dizia que  iria a   Nova York. Tinha de aprender inglês por esse motivo.Aos 7 eu descobri que estava equivocada quanto ao país. Seria Espanha? Seria Suíça? Seria França? Eu vivia mudando de direção. Até que veio aquele filme e soube com certeza: Inglaterra.  Londres! Isso bem antes dos Beatles.   A chegada deles  veio como confirmação.  O problema era apenas um: como é mesmo que eu iria? Duvidava receber consentimento dos meus pais.  E se eu fosse estudar por lá? Na London School of Economics…Li em algum lugar que havia tal escola.

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    Em 65 eu  sonhava com essa viagem. Venceria o medo de avião?    Sentada  no alpendre  eu  deixava de  me preocupar.  Entrava nas músicas que as rádios me presenteavam…Cantava junto: “ Olhando esse céu sem fim, de leste a oeste ou de norte a sul, vi você piscando para mim, nesse imenso céu azul…”Pronto. Paul. Só pensava nele! E tinha aquela:.,..É que eu gosto tanto dele que é capaz dele gostar de mim. Acontece que estou mais longe dele que da estrela a reluzir na tarde…” Paul de novo.  “ Será possível  ele  gostar de mim apenas porque eu gosto tanto dele? Que teoria maluca é essa?” Eu achava graça…mas prosseguia cantando olhando Vênus, que tornou-se minha confidente. Para ela eu contava tudo. 

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   Eu estudava no turno vespertino.  As manhãs eram livres com o rádio ligado  para ouvir os  Beatles.   Melhor ainda era ouvir os discos.  Tinha aprendido uma nova maneira de ouvi-los.  Nada  de ficar conversando com outras pessoas. Era preciso concentrar, entrar dentro da música, viver intensamente cada som. Comum ouvir a mesma música quatro vezes seguidas. Uma vez para prestar atenção na bateria. Depois nas guitarras. Em seguida para ouvir  a guitarra baixo. E  flutuar.   Nunca antes tinha prestado atenção a esse instrumento. Acho que nem sabia de sua existência. Mas  por ser  o instrumento de Paul era preciso   dar especial atenção àquele som.  Tinha ganho um toca disco no Natal, mesmo para não ficar incomodando todos da casa com  músicas que praticamente apenas eu gostava. Era  mono,  marca Phillips,  som saindo da tampa. Eu punha o disco, fechava os olhos, e ficava ali ouvindo, tampa colada  no ouvido. Tinha início um diálogo com as notas.  Elas conversavam comigo…e eu respondia brincando. “ Yes, Paul. I love you too.”  E a quarta vez? Para ouvir as vozes e  todos os instrumentos  juntos.  Até hoje sei de cor cada nota  emitida por eles. Sei a hora da entrada de cada instrumento.  Cada detalhe do arranjo e da harmonia vocal inigualável.  Um dia resolvi ouvir um disco de outra banda procurando o baixo. Descobri que não tinha o mesmo sabor. E conclui: “Paul é o melhor baixista do mundo! Só ele conversa conosco ao tocar. E  sussurra  coisas lindas.” Eu não estava errada. Hoje já se sabe que Paul realmente criou um estilo de tocar o baixo. Deu vida a um instrumento que antes apenas marcava o ritmo. Houve um tempo,  como eles diziam,  que o baixo era aquela coisa que um cara gordo tocava lá atrás. Com Paul  passou a ser aquela coisinha linda que um cara lindo tocava  na frente. Um som que bate nos nossos corações. Bate? Não é essa a palavra certa.  Ele toca carinhosamente nossas almas.  Hoje a coisa passou do limite, bem sei. Os baixistas ferem nosso peito. Ninguém nos acaricia  com música como Paul McCartney.  Em 65 eu já sabia disso. Como também sabia que a música que faziam nos devolvia o bem estar perdido.  Leve dor de cabeça, uma certa indisposição? Hora de ligar o toca disco. Qual música? “And I love Her”. Pronto. No final da música tudo estava bem de novo.  Muitos anos mais tarde, venho a saber que o mesmo fazia Paul,  ouvindo Elvis Presley! “Ele era o Messias”, disse.. Eu não pensava  assim.  Nada de Messias. Sabia apenas que algo de mágico  e muito belo estava acontecendo. Diretamente dos Beatles para todos nós de coração aberto sem medo do novo.  Impossível  saber o que realmente era.  Mas sabia que, se me abrisse,  eu receberia. O mundo estava mudando, surpresas chegando, o impossível acontecendo. Era o sonho tomando forma  como uma linda sinfonia …regida pelos Beatles. Yeah, Yeah, Yeah,

Virgínia A. de Paul (a)

8 Respostas para “Yeah, yeah, yeah.

  1. Deliciosa crônica, Virgínia!!! Concordo com você, o baixo do Paul é uma melodia à parte, acho que ele foi o precursor dessa maneira de tocar baixo. Gosto especialmente dos baixos de With a Little Help from my Friends e Something.
    Parabéns pela crônica, que nos leva de volta a um tempo em que os sonhos eram tão presentes nas nossas vidas…!!

  2. Obirgada, Solange! Muito importante para mim ter feedbacks. Bom saber que você concorda sobre a beleza do som criado por Paul no seu baixo histórico.

  3. Adoro essas histórias, nos fazem voltar(viajar) no tempo…parabéns!!

  4. Um bonito registro…

  5. Um bonito comentário…

  6. Muito gostoso escrever sobre eles. E também é muito gostoso ler seus comentários. Agradeço a todos vocês.

  7. Lindo!! Foi sorte sua ter vivido nos anos 60 eu tenho 20 anos e infelizmente não tive esse privilégio mas faço de tudo pra reviver essa época mesmo que eu não tenho nascido nela. Os beatles foram e sempre serão uma coisa mágica, me identifiquei com cada palavra que você disse sobre as músicas, sinto o mesmo, incluindo o mesmo sentimento por Paul, meu sonho é ir num show dele e ver ele de pertinho hihi.
    bjs ;*

    • Deve ir, Ana Paula. Eu não o vi de pertinho, So no palco, mas valeu e como. Escrevi sobre isso também aqui no Beatles College, você leu? Eu conto da emoção de ver um show de Paul McCartney. É algo inesquecível e quase que indescritível. Estou preparando novo texto agora, também recordando o ano de 65. Muito obrigada por apreciar e parabéns por curtir e sentir a magia dos Beatles.

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