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“Os Beatles chegam a Montes Claros”

1965. Ano que me tornei definitivamente Beatlemaníaca após ver o filme “A Hard Days Night” em Belo Horizonte.  Aconteceu algo parecido com o Nelson Mota. Ele não ligava muito para as primeiras músicas dos Beatles, mas ao ver o filme, ficou fã. Talvez não Beatlemaníaco, mas passou a admirá-los a partir do filme. Eu fui além. Passei a viver na Beatles Land apaixonada pelo Paul McCartney. Eu diria que por todos eles! Paul ocupava um pedaço maior do meu coração sem que eu deixasse de amar George, Ringo e John. Não estava sozinha nessa. Tinha amigas sentindo a mesma coisa.  Com certeza havia meninos fás, porém era um tempo em que não havia grande convivência entre moças e rapazes. Tudo mudou a partir de 66. Em 65 os meninos só se aproximavam se queriam namorar. — “Posso te acompanhar?” Ai, meu Deus. Por isso eu só conhecia meninas beatlemaníacas.  O campeão de fás na minha turma: George Harrison. Paul e Ringo ocupavam o segundo lugar. Empatados.   John ficaria surpreso: não havia nenhuma menina Lennon entre nós.  Sem deixar de também sermos louquinhas por ele.  Éramos fás dos Beatles, ora.   Num tempo sem internet e com apenas um canal de TV com péssima imagem  que nunca mostrava Beatles, nossa curtição se limitava a ouvir os discos e comprar as revistas que, de quando em vez, os incluíam em suas matérias. Passávamos na Agencia Thais quase que diariamente para conferir. Que celebração ao achar alguma coisa. Então era fazer álbuns com as fotos recortadas das revistas. E ficar horas a fio olhando, sonhando, pensando, reparando em cada detalhe de uma simples foto. Apenas eu tinha visto o filme deles. Tinha de contar e recontar.  Ficavam bobas com o que eu dizia. – “Quando passar aqui vão ver que é verdade. Eles não caminham como as outras pessoas. Eles fazem tudo diferente. Não devem ser desse planeta. Se acham que são lindos só de ver as fotos, esperem até ver eles se mexendo. São M.A.R.A.V.I.L.H.O.S. O. S”.

Dois de Julho.  Uma das amigas chega esbaforida na casa do meu tio João, onde a turma estava reunida: — “Gente, não sabem da maior. Vão passar um filme no cine Cel. Ribeiro chamado “Um Rato na Lua”. E antes vão sortear shorts dos Beatles! Eu acho que é sorteio. Falaram só que vem junto, mas deve ser para sortear, não é? De qual deles será?” Realmente espantoso. Ela continua. — “Vi o anuncio na vitrine da Casa Alves”.  Saímos  todas correndo para ver também.  Lá está o cartaz onde lemos: “Vejam a comédia “Um Rato na Lua” domingo no Cine Cel. Ribeiro. Acompanha um short dos Beatles.” Começo a rir deixando a amiga sem graça. De que estaria rindo? — “Short! Não shorts. Não é um calçãozinho deles. É um filme curta metragem, um documentário!” E então cai a ficha. Um documentário com os Beatles? Em Montes Claros? Bom demais! Estão vendo a cena? Cinco garotas dando pulos e gritando em plena rua. Finalmente elas veriam os Beatles “se mexendo!” E eu os veria novamente.

Sábado, quatro de Julho. Final da tarde. Leila chega luminosa em minha casa com seu sobrinho Barna. Tinha visto o “short”. O que? Não seria no domingo? — “Calma, amanhã tem mais. Fiquei sabendo por acaso que começaria hoje.” Conta tim tim por tim tim  tudo que tinha visto. Ela e o menino fazem um show no meu quarto procurando imitar os gestos dos Beatles. — “George mexe com os pés bem assim… Ele e Paul balançam as cabeças fazendo uuuuuu!” Gritamos tão alto que minha mãe se preocupa.  Bate na porta do quarto.  –“O que está acontecendo?”

Decido ir ao cinema à noite. Impossível esperar até o dia seguinte. Ligo para a casa das primas e lá vamos ver os Beatles. Eu caindo de tensão nervosa. Medo de algo dar errado. E se a fita quebrasse na hora? Se a luz fosse embora? Mil preocupações sem sentido. Dor de barriga, mãos frias e rosto quente. –“E se estragou? Se não passarem? Se estiver programado para o final vou ficar pensando que desistiram de passar e nem vou ver o filme direito.” Levanto para conversar com o porteiro. — “O curta dos Beatles é antes ou depois do filme principal?” Antes. Volto mais calminha para meu lugar.  O filme de Richard Lester, o mesmo diretor de “A Hard Day’s Night”, é ótimo! Mas o curta vai além da imaginação. “The Beatles Come to town” é o titulo. Vemos o delírio dos fás em  desespero, a compulsão de correr atrás deles, tocá-los,  de gritar, chorar… Nós sentindo algo bem parecido dentro do cinema, imaginando estarmos ali vendo os Beatles de perto. Eles no camarim, eles se aprontando, brincando em frente â câmara, posando com um lindo ursinho de pelúcia, andando no corredor, tudo ao som de “From me to you”.  E,finalmente, eles cantando “She Loves you” e “Twist and Shout”.   Comoção geral. Ate um guardinha não resiste e entra no embalo. Fim.  Saímos do cinema em transe.

— “Virginia, é verdade, eles não parecem humanos! De onde serão?”

The Beatles come to town

Até hoje não tenho reposta para essa pergunta. Em casa, no meu diário, escrevo páginas e páginas sobre o filminho, dando detalhes de cada coisa vista.  “Um por um, na tela toda, coloridos e dilacerantes… Os quatro indo para o palco. Por que até para caminhar são tão diferentes? A hora mais alucinante é quando Paul e George juntam as cabecinhas e balançam os cabelos. Paul é canhoto. Coisa de doido. Eu queria gritar como aquelas ali que gritavam, choravam, comiam lenço…Eu preciso gritar. Estou sufocando…”

Dia seguinte voltamos  ao cinema  à tarde para ver apenas o curta.  Lá estamos nós de novo durante a noite.  Vejo meu irmão mais velho por lá. Em casa ele confessa ter visto duas vezes. No meio da sala, balança a cabeça e… “uuuuuuu”! Dá uma risada. – “Eles são mesmo fora do padrão. O caminhado deles é só deles. E nunca vi ninguém penteando os cabelos daquele jeito.” Bom saber que não estava pinel.  Meu irmão tinha notado.   Ele me conta que alguns amigos tinham perguntado por mim no “Baile do Suéter” no sábado. – “Por que ela não veio?”  Ele responde que ficaria muito  longe  para mim.  –“Onde ela está?” perguntam os amigos. Resposta:  “Em Liverpool”.

Qual o programa da segunda feira? Ver os Beatles à noite. Pergunto ao porteiro na saída.  –“Amanhã tem mais?”  –“ No cine Ipiranga.”

Puxa vida, tão longe! A Lúcia quer ir ver só mais uma vez. Vamos juntas achando aquilo uma grande aventura. Nunca tínhamos ido ao Ipiranga por ser longe do centro. Pelos Beatles vale  tudo. Lá dentro nem procuramos cadeiras para sentar. Seriam só sete minutos! A emoção é a mesma do primeiro dia acrescida de lágrimas por ser a despedida.  Eis nossa conversa na volta.

–“ Que cidade será aquela onde eles chegaram? Londres? Liverpool?

Eu respondo: –“ Acho que nenhuma das duas. Eles moram em Londres e são de Liverpool. Pelo título, parece  ser uma cidade onde não costumam ir sempre.

–“Já pensou se chegassem aqui? Bom, pelo menos o filme chegou.

 

–“É. Suas imagens chegaram a Montes Claros. Sabe o que eu mais gostaria? De ter um projetor em casa e poder comprar o filme. E pensar que meu pai já teve um projetor!”

– “ Será que existe para vender? Seria bom demais!”

– “Isso eu não sei, mas como quero!  Quem sabe os anjos dizem amém?  Poder ver o filme sempre que sentir vontade.  Ver de novo os cílios enormes de Paul”…

–“ E os olhos azuis de Ringo”, completa Lúcia.

Suspiros.  Seguimos pela rua vazia, silenciosa. Lua flutuando no céu.  Linda.

–“Lúcia, olha a lua! É a  mesma para eles também! Já pensou nisso?”

–“Pensando agora. Se estiverem olhando para o céu verão a mesma lua!”

– “Ela é nossa ligação com eles. Mas o fuso horário é diferente. Devem estar dormindo…

Começo a cantar: “Lua, manda a tua luz prateada despertar nossos amados…” Lúcia  começa e rir.

–“Acho que estão na vida noturna. Na saída de alguma boate verão a lua, se o céu de Londres não estiver nublado.”

– “Então, querida  lua, receba nosso amor e jogue sobre eles.”

Paradas na esquina, com toda seriedade,  enviamos amor olhando para a  lua.

— “Para Paul, Ringo, John e George”.

The+Beatles+-+Come+To+Town+(Live+In+Manchester+in+1963+color+Pathe+Newsreel)_idx

17 de agosto de 1995.

Festa de Agosto em Montes Claros. Eu apreciando o reinado de São Benedito ao som dos tambores dos catopês. Então vejo Leila, há anos morando em Belo Horizonte. Sempre bom revê-la. Dessa vez uma grande surpresa. –“Estava indo até sua casa! Tenho uma novidade! Estive em Liverpool!”

Escoro no muro para não cair. Por que não me levou?

–“Liverpool não fazia parte do roteiro. Quando chegamos na Inglaterra eu bati o pé que tinha de ir até lá. Como é que você falava mesmo? Eu vou “ali ver Paul”.

Conta da beleza do passeio e da enorme emoção ao chegar no Cavern Club.  O impacto foi tanto que mal podia andar. As amigas caçoando. – “Ai, cadê Virgínia? Ela me entenderia. Por que não veio comigo?”

Abre a sacola e vai tirando presentes vindos diretamente da terra dos Beatles e todos com motivos Beatles.   Imã de geladeira, chaveiro, broches, moedas, postais…E por último uma fita de vídeo cassete. –“Americana. Fita inglesa não pega aqui no Brasil. São vários filminhos com eles, entrevistas, notícias… e uma surpresa.”

Ela vem comigo até minha casa. Ligo o VCR.  Começa: “The Beatles Come to Town…”  Rebento a chorar.  E logo começo a rir.  –“Sabia que você ia gostar”

Tantas lembranças! Ainda querendo gritar e realmente grito quando Paul e George unem as cabecinhas…uuuuu. Leila e eu damos risadas. — “Fomos ver o filme todos os dias…” Mas ela não foi ao Ipiranga. –“Você acertou  mais do que imagina.  Pedi este filme aos anjos. Finalmente chegou…30 anos depois.”  Hoje posso ver  também pelo Youtube e outros sites na internet.  Já sei mais detalhes sobre a produção. A cidade onde se apresentam  é Manchester! Ano de 1963!  Posso ver e rever os cílios enormes de Paul, os olhos azuis de Ringo, sempre que quiser. Os anjos disseram amém. E a lua? Terá derramado nosso amor sobre eles como pedimos? Quero crer que sim.

Virgínia Abreu de Paul(a)

2 Respostas para ““Os Beatles chegam a Montes Claros”

  1. Anos sessenta, beatlemania, a gente apaixonada pelos Fab Four e só imaginando como seriam eles “se mexendo”. Os álbuns que fazíamos com recortes de revistas, a espera ansiosa pela chegada de cada disco às lojas, e enfim eles no cinema!! Era sessão após sessão, a gente entrava na do meio-dia e só saía na última.
    Tudo isso eu revivi ao ler este delicioso texto!!! Voltei no tempo, yeah, yeah, yeah!!

  2. Solange, seu comentário me emocionou. O objetivo de escrever minhas memórias dos Beatles é exatamente este: tocar os corações dos que estavam lá, que participaram mesmo à distancia. Tão longe, tão perto. Recordar aquela emoção. Os Beatels Na Minha Vida significa Os Beatles em Nossas Vidas. Liberavam tal energia. E vibrávamos todos juntos em amor. É algo tão forte que até hoje sentimos a vibração quando ouvimos suas músicas, quando vemos os vídeos. Saber que você se lembrou de tudo, que fazia que nem nós aqui, bateu fundo dentro de mim. Obrigada.

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