Galeria

Dez lembranças ao som do Sgt Pepper’s.

Veja a primeira parte aqui

Seriam nove. De repente “pintou” mais uma gritando para ser incluída. Aqui estão elas.

Cena um: Inicio de Junho.   Rumo à Brasília DF, de ônibus, com o grupo de Seresta João Chaves de Montes Claros. Todos excitados porque cantariam para o presidente Costa e Silva no Palácio da Alvorada.  O grupo também seria a atração especial na inauguração do clube Solar dos Estados onde haveria a eleição da Miss Brasília 1967. Mas meu coração bate acelerado por outro motivo: estou ouvindo em primeira mão, pelo Serviço Brasileiro da BBC, a grande novidade musical do momento: o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. O locutor não cabe em si de contentamento.  Não consegue anunciar a próxima faixa sem largos elogios: “Eles são formidáveis! Conseguiram se superar! Nunca ouvi nada parecido em minha vida…” Eu pasma e bestificada, apesar do som cheio de estática que de vez em quando some. “Vem direto de Londres, atravessando o oceano…”, penso emocionada.

chiques

 Cena Dois. Chegando em casa abraçada ao disco recém-adquirido. Agora posso ouvir direito e cantando junto. Eis que chega um primo de São Paulo. Vê o disco sobre a mesa e comenta.  –“Esses caras não se cansam de revolucionar. Tem até galo cantando. Sabe que havia uma fila na rua para comprar o disco? Dobrando o quarteirão!” Ouço aquilo toda orgulhosa! Como se fosse mãe das quatro gracinhas.

 Cena Três.  Entro na casa da prima Ondina carregando o disco nos braços como um bebê. Ela tinha acabado de chegar dos Estados Unidos. Meu inglês ainda fraquíssimo, a prima craque no assunto, eu corro até ela.  – “O que é meter maid?” Passo ali a tarde toda curtindo ainda mais, agora que já sei o que estão cantando.

Cena Quatro: Final do ano. A equipe de ‘Os Marginais”, filme rodado na minha cidade, reunida no nosso alpendre. Todos dando palpites sobre quem é quem na capa. Muitos rostos conhecidos e identificáveis. Outros nem tanto… – “Este aqui é o Joaquim Pedro…”, diz Carlos Alberto Prates, o diretor do filme. Referia-se a Joaquim Pedro de Andrade, diretor do filme “O Padre e a Moça”. A brincadeira prossegue com cada um procurando achar amigos pessoais na foto, o que leva um deles a dizer:  – “O disco é muito bom, mas a capa também é genial. Esses uniformes coloridos são demais. Deve ter algum sentido que está me escapando. Cada um de uma cor diferente… E nenhuma é Khaki.” –“Eles sabem que temos uma ditadura militar no Brasil e estão fazendo um ataque velado…” diz  outro, por pura gozação. O primeiro insiste que deve ter algum significado oculto. E acrescenta:  – “Sabem que resolvi ouvir outros discos deles e gostei? Aquela trilha do filme “A Hard Day’s Night” me surpreendeu!” – “O filme também é muito bom, estilo comédia Keystone. Feito com câmera na mão! Uma fotografia de louco”,  diz  um dos fotógrafos. – “O Glauber Rocha adorou “Help”, informa  um dos rapazes do nosso cineclube. Entro na conversa: -“Lembro dele sugerindo dois prêmios Gaivota de Ouro no Festival do Rio, porque assim os dois filmes que tinham adorado seriam vencedores. E aceitaram. Um dos filmes era Help! –“E qual foi o outro?”, pergunta o cineclubista.  –“A Velha Dama Indigna,” respondo. Ninguém mais se lembra. Primeira vez vendo um grupo de intelectuais dando valor aos Beatles. “I have to admit it’s getting better, it’s getting better all the time.”.

22nd May 1967: The Beatles (clockwise from top left: Ringo Starr, George Harrison (1943 - 2001), John Lennon (1940 - 1980) and Paul McCartney) pose for a photocall to promote their new album 'Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band'. (Photo by John Pratt/Keystone/Getty Images)

Cena cinco: Um ano mais tarde. Conversando com Hélio Guedes, o Patão dos Brucutus e irmão de Beto Guedes, enquanto o disco gira na vitrola. Sua banda, que estaria completando 50 anos agora em 2015,  foi a primeira cover de Beatles que conheci, embora também cantassem músicas de outras bandas. De chofre, ele pergunta.  ­–“Sabe a origem do nome Banzé?” Banzé: grupo para-folclórico fazendo sucesso na cidade sob a direção da folclorista Zezé Colares. De brincadeira eu respondo. – “Uma homenagem ao cachorrinho filho de Lili e Vira lata.” – “Errou. Tente de novo.” – “Talvez pelo significado da palavra…” – “Não. Foi ideia minha. Seria “Banda dos Corações Solitários de Zezé Colares”. Não aceitaram, mas usaram o Ban de Banda e o Zé de Zezé. Virou Banzé”.  –“Então foi graças a você…”  —  “Graças a mim e aos Beatles!”

Cena seis. Meados dos anos 70. Belo Horizonte. Ginásio Mackenzie. Show da noite: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.” Sim! Com Os Mutantes e O Terço! Imperdível.  Não acho com quem ir, então vou só. Onde me sentar? Está lotado.  Há lugar vago pertinho do palco. Não veria bem porque as enormes caixas de som ficariam na frente dos músicos.  Salto a corda estendida e tomo assento. Logo o show começa. Maravilha. Apesar das caixas eu vejo até bem. Todos com uniformes iguais aos usados pelos Beatles. As duas bandas, perfeitas, se revezam.  Certa hora, na vez do Terço, olho para trás. Vejo dois rostos conhecidos. Seriam de Montes Claros?  Não! São os meninos Mutantes! Sentadinhos bem atrás de mim. Cai a ficha. Eu tinha invadido o lugar reservado para os músicos e equipe. Claro, a cordinha era para isso. Ninguém disse nada e é ali que fico até ao fim como se fosse da turma. Uma noite inesquecível.

Cena sete. No cine São Luís vendo o filme “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club band. 1980. – “Mas não são com eles, não deve ser bom…”, dizem os amigos. E daí? Um filme com músicas dos Beatles, não apenas do Sgt Pepper’s, do início ao fim! E com bons cantores. Impossível perder. Resolvo fazer como a letra da música pede: “Sit back and let the evening go…” Sigo viajando com os Bee Gees, Peter Frampton, Paul Nicholas, Alice Cooper, Billy Preston, Aerosmith… Com arranjos de George Martin, ainda por cima. Vejo sem comparar com os originais, ou então sairia correndo. Enredo terrível! Como o disco não tem história cinematográfica, é apenas um show, inventaram uma livremente. O Mr. Kite não é o dono de um circo. É o prefeito da cidade do Sargento… que fica nos Estados Unidos! Ai, ai, ai. Um disco tão inglês! E Strawberry Fields? Nada de orfanato!  No filme é uma mocinha com esse nome. E´… podia ter sido bem melhor. Mas a parte musical é o que conta. Eu só podia dizer: “it’s wonderful to be here. It’s certainly a thrill.”  

11-The-Beatles-London

Cena oito: Dessa vez sem ouvir as músicas. Ou melhor, ouvindo apenas um trecho cantado amadoristicamente. Vale.  Eu no alpendre com um amigo, já no terceiro milênio. Conversas metafísicas e quânticas, indagando sobre mensagens subliminares positivas… Ele:  — “Os Beatles no Sgt. Pepper’s pareciam nos chamar para algo especial”. E canta empolgado:   So let me introduce to you The one and only Billy Shears  And Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band.. Era uma convocação!”–“Sem dúvida. Um convite para Pepperland!” Pena que o sonho acabou. Será que acabou mesmo? A música permanece. Os Beatles permanecem. O sonho está por aí.

Pausa para sentir o clima de 67. Reviver o sonho.  Fecho os olhos. De longe chega o som da voz de Johnny Rivers. Uai, por quê?  Logo descubro a razão. É ele cantando uma música de nome “Summer Rain”. Na letra ele recorda o verão feliz que passou ao som de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.  O verão do amor. Ah, acho que vou chorar.

Cena nove: 2014.  Festa de Cinquenta Anos dos Beatles.  Ringo canta “With a Little Help from My Friends”, do Sgt Peppers.  Agora, ele e Paul estão juntos no palco entoando a abertura, a convocação, visivelmente emocionados. Eu tão maravilhada que até esqueço estar do outro lado do mundo. Por segundos, ao findar o show, penso estar no palco também. Eles se aproximam de todos os participantes, com abraços e sorrisos em agradecimento pela beleza da noite e eu achando que  vai chegar a minha vez. “Oba, vou receber beijocas deles!” A ilusão dura segundos, mas é forte o bastante para me arrepiar.   Pura magia Beatles.

Momento 10. Realmente nota dez. Novembro de 2014, Brasília. O que parecia impossível acontece. Eu vendo o Paul em carne, osso e espírito, num show de beleza extrema. Sem medo de errar, o mais espetacular show do mundo numa seleção musical abrangendo toda sua carreira, incluindo, obviamente, trechos do “Sgt Pepper’s”. Não é mais apenas sua voz gravada. Não é mais uma banda cover. O som vem diretamente do artista. Recordo aquela noite no ônibus, em 67, eu já me sentindo coberta de benções pela chance de ouvir o disco diretamente de Londres, sem saber que ainda veria o próprio criador gritando aquele “Rita!” tão perto de mim. É uma chuvarada de benções.

Ah, impossível sair do clima de uma vez. Recordo agora o que não vi com o uso da imaginação.  John se dirigindo para o lançamento em casa do Brian Epstein no seu carro, o tempo todo ouvindo ‘Whiter Shade of Pale”. Imagino a recepção. Revejo seus lindos e felizes rostos nas fotos, conscientes que estavam mostrando ao mundo algo impactante, comparável apenas a uma tempestade gostosa com trovões e relâmpagos. Meses e meses gravando esse presente primoroso recheado de personagens que entraram para sempre em minha vida. Mr Kite, Lucy no céu com diamantes, Lovely Rita, Billy Shears… e é claro, Sgt. Pepper. “We hope you enjoyed the show”, cantam eles na reprise. E como, meus queridos, e como. You really turned me on. Forever.

Virgínia Abreu de Paul(a)

5 Respostas para “Dez lembranças ao som do Sgt Pepper’s.

  1. Obrigada pelo Link para a introdução.🙂

  2. Gostei muito,Virgínia.Parabéns!😀

  3. Chico Ornelas

    Como era mesmo que falávamos ? Uma ideia na cabeça e uma câmera nas mãos ? Então está pronto o seu filme. Roteiro detalhado.trilha sonora
    definida.detalhe os planos e vamos nesse sonho sem fim.
    Ação !!!

    • Chico, você viu o roteiro. Saber que alguém viu me deixa mais do que feliz. Só falta detalhar os planos! E quem sabe será realidade no cinema de London/Moc! Agradeço muito sua deliciosa postagem.🙂

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