Galeria

Nove lembranças ao som do Sargeant Pepper’s

Introdução

No dia primeiro de Junho de 1967 aconteceu algo extraordinário: o rock elevou-se à categoria de Arte com o lançamento de “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club band”. Os Beatles já vinham fazendo maravilhas  e o disco anterior, Revolver, também era um trabalho artístico a começar pela capa. Desde Rubber Soul a coisa vinha mudando a tal ponto que os nomes dos discos eram mais citados  que os nomes das músicas que os compunham. Devido à alta qualidade de todas as faixas era mais fácil dizer o nome do álbum.  Talvez seja esse o motivo que fez com que a Odeon passasse  a lançar seus discos no Brasil iguais aos ingleses. Não era mais possível fazer alterações como antes.  Apesar disso ainda podiam ser definidos como uma  seleção de músicas.  Sgt. Pepper’s mudou tudo ao trazer  o  rock conceitual, inteiro, com principio meio e fim. Praticamente sem roteiro. Eles se apresentam como a banda “Corações Solitários” do Sargento Pimenta num convite irrecusável para “sit back and let the evening go”. Fazem o show com repertório extasiante.  E se despedem magnificamente.  Voltam trazendo uma orquestra sinfônica de causar arrepios e ainda se atrevem a brincar, por segundos, com a Rainha. Há também sons ouvidos apenas por cachorros. Bravo!  A partir daí  fica  impossível ouvir  discos dos Beatles  saltando faixas.  A inspiração para tal obra prima veio de Paul ao ouvir o disco “Pet Sounds” dos Beach Boys, que por sua vez, tinham se inspirado no “Rubber Soul”.  Sem plágios, diga-se de passagem. Apenas influência. Paul gostou do que ouviu dos meninos da praia sentindo-se motivado a criar algo novo. Talvez naquele dia nem soubesse que o resultado seria tão espetacular.  Ele se entusiasma. Leva a ideia aos parceiros que também se empolgam. E quando aqueles quatro se uniam era como se recebessem benções do alto tal a beleza do resultado. Levam cinco meses para completar o histórico álbum. Não mais excursionavam,  muito tempo livre para as gravações, e tinham atingido um grau elevado no conceito da EMI. Antes dos Beatles os músicos não tinham regalias.  Mas eles mudaram isso também. Comandavam, pediam as coisas mais disparatadas e recebiam. Devido à demora, a imprensa começa a insinuar que estavam desgastados, sem apresentar nada, estariam no fim? E Paul pensa com seus botões: “Não perdem por esperar.” Quase caíram de costas ao ouvirem o disco devidamente lançado com festa para a mídia na mansão de Brian Epstein em Belgravia.img_20140324135353_0e34babc

O rock Arte continuou nos álbuns  seguintes. Mesmo diferentes no estilo, (eles não mais  se repetiam), mantiveram o capricho e esmero, oferecendo-nos  verdadeiras joias que nos convidavam  a entrar nas músicas naquela sequência. No “Magical Mistery Tour” o convite veio expresso logo  na primeira faixa. “It’s an invitation to make a celebration”. Como não aceitar? No álbum “The Beatles”,  ou “Álbum Branco”, há uma despedida na última faixa nos desejando boa noite. Fim da viagem. No lado B do Abbey Road  chegam ao ponto de montar uma espécie de pout porri com as músicas interligadas no que veio a ser chamado de Medley Abbey Road. E com despedida, infelizmente verdadeira, dizendo que “no fim, o amor que recebemos é igual ao amor que fazemos”. Essa nova maneira de nos apresentar música popular, a meu ver, deu seus primeiros passos em 65.  “Yesterday” teria sido, de certa forma, um ponto de partida. Descobriram ali ser possível sair da zona de conforto  sem medo.  A princípio, esse clássico de Paul foi vetado pelos demais por pensarem que estava  fora do  “estilo Beatles”.  George Martin foi quem abriu os olhos dos garotos.  Não sei os argumentos usados. Mas posso imaginar. Eles  tinham chegado mudando a cara do rock. Por que não avançar? O “estilo Beatles”  era, na verdade,  a ousadia. A música foi gravada com solo de Paul acompanhado por um quarteto de cordas!  Sucesso absoluto. Mais uma porta aberta para inovações que não paravam de acontecer. George trás a cítara indiana. Paul chega com colagem de sons que vinha pesquisando no movimento underground. John aparece com temas nunca antes cantados.  Em “Tomorrow Never Knows” ele se inspira na versão de Timothy O’Leary para “O Livro Tibetano dos Mortos”! Um tema desse  e envolvido nos sons experimentais levados por Paul, só poderia dar no que deu: o nascimento do psicodelismo. Não havia limites para eles o que os tornaram inclassificáveis. Eram mais pedras rolantes, jamais criando musgo, que os próprios Rolling Stones. Tal versatilidade e criatividade os levam  a Sgt Pepper’s influenciando toda uma geração de músicos. No Brasil, não duvidem,  influenciou fortemente  o movimento tropicalista dos baianos. Nada a ver  com as óperas rock que surgiram depois. Podíamos criar nossas próprias fantasias ao nosso modo. Eu  vejo, até hoje, a mocinha saindo de casa ás cinco horas quando o dia começa. E sinto  o cheiro da serragem  em  Mr. Kite, bem como John queria.sgt_pepper_cover2

O capricho do disco não se limita às músicas. Será que tomaram aulas de dicção?  Nunca pronunciaram as palavras tão claramente e, que beleza, no mais perfeito sotaque britânico. Better tem som de tê  e não de erre. Nada da velha tentativa de cantar rock como americanos. Afinal, mesmo querendo, os fãs da terra de Tio Sam diziam não entender bem o que cantavam. Impossível não entender agora. Para facilitar ainda mais, o disco veio com as letras na capa, outro pioneirismo. É verdade que o disco “Stardust” de Pat Boone foi lançado com letra (e até tradução!), mas tal coisa não tinha ainda acontecido em discos de música moderna. O Lp de Boone consistia de releituras de sucessos dos anos 20.

Me pego pensando se não foi devido a esse disco que mudaram a palavra conjunto para banda. Na Inglaterra diziam rock groups.  Banda era para músicas militares, dobrados… ou  Jazz. A banda dos Beatles  era militar…Seu Pimenta era Sargento! E todos estão uniformizados na capa. Coloridamente uniformizados.   Porém o show que a banda apresenta é de música psicodélica, ou melhor dizendo, de rock Arte. Desde então todos passaram a falar banda de rock. Apenas uma teoria minha sem confirmação.

Uai, e as nove lembranças? Estão na segunda parte. Hoje é só a introdução. Nada melhor do que ouvir os Beatles enquanto vou puxando pela memória.

“It was twenty years ago today. Sgt. Pepper taught the band to play, They’ve been going in and out of style, but they’re guaranteed to raise a smile, So may I introduce to you, The act you’ve known for all these years, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band….”

Virginia Abreu de Paul(a).

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6 Respostas para “Nove lembranças ao som do Sargeant Pepper’s

  1. Sonia Regina Machado

    Muito legal! Ansiosa para ler a 2ª parte.

  2. Oh, meu Deus, Virginia! Há quanto tempo, minha amiga! Sinto como se fossem anos. Desde que minhas aulas voltaram eu não tenho tido tempo para praticamente nada (risque o praticamente), e estava com uma saudade do College (e dos seus textos) que chegava a doer!
    Mais uma vez me surpreendendo. Sinceramente, não me canso de ler o que você escreve. Lembro como se fosse ontem da primeira vez que ouvi o Sgt. Pepper’s. Sentei-me e quando me dei conta, o álbum inteiro já tinha acabado, e olha que eu geralmente não tenho paciência para ouvir um álbum inteiro. O Sgt. é diferente. É meu segundo favorito (Rubber Soul no primeiro lugar <3), e eu simplesmente me perco na música. Cada faixa é simplesmente cheia da magia dos Beatles. O que pode haver em um álbum para fazer com que as pessoas sintam vontade de ouvir várias vezes seguidamente, sem parar nem enjoar, e o que pode fazer uma banda ter essa característica em especial em todo álbum que lança, se não é mágica? Eu não sei. Mas genialidade não se explica. E, minha nossa, que bela de uma introdução (além de uma análise incrível)! Ansiosa pela segunda parte.
    Abraços!

  3. Obrigada, Sonia. Obrigada mesmo. Amigos meus no facebook continuam clicando apenas lá, embora eu sempre peça que cliquem aqui. Não adianta. Talvez pensem que procure por elogios. Criticas construtivas também valem, claro. Podem ser aceitas…ou não. kkkkk. Mas demonstram interesse, mostram que realmente leram. Penso que alguns apenas clicam sem ler. E tem aqueles que me telefonam! ” Eu li e gostei” Clicou lá? Não! KKKk. A segunda parte pode agradar meus conterrâneos, pois cito amigos pessoais. São lembranças de coisas vividas enquanto ouvia o disco. Mas não é preciso ser Montes-Clarense para apreciar, creio que não. As pessoas daqui entram porque estavam juntos. Mas o tema continua sendo o Sgt Pepper’s. Viva o Sgt Pepper!

  4. Gostei muito! 🙂

  5. Alice! Puxa, eu tinha marcado aqui para ser avisada de algum comentário…Ou será que pensei que fiz isso e me esqueci? Não sabia do seu comentário. Bom demais ver você de volta. E muito obrigada por tudo que escreveu. Viu a segunda parte? Logo terá novo texto! Beijos!

  6. Também não tinha lido o comentário de barbosavl. Obrigada, querida.

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