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“I’ll be back!” (Parte III)

Ou “Até a próxima!”

(I was nervous but I did it).

Parte I | Parte II

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Chegamos a Brasília aos primeiros raios de sol. Meu amigo Geraldo  nos recebe na rodoviária, com ar feliz. Clima fresco, céu azul clarinho. –“Mas vai chover”, sentencia meu amigo. E conclui -“Comprei capa para nós.” Que previdente!  Fazia tempos não vinha a Brasília e como está linda! É porque Paul está aqui, em algum lugar, penso sorrindo. Geraldo mora na Asa Sul, uma região tranquila perto das embaixadas. Linda e aconchegante casa com muito verde, tranquila, cachorrona simpática no quintal. Ele só falta abrir um tapete vermelho para nossa entrada. Sua esposa está no Rio. Bem que pensou em ir ao show, mas tinha um compromisso na “Cidade Maravilhosa”. Seu enteado, Gustavo, está presente. Tomamos um café, descansamos, almoçamos num Shopping Center com opções veganas. Na volta, numa cochilada, vejo Paul assim que fecho os olhos. Ele diz: -“Você pode passar na frente.” Obrigada, Paul. Saímos para o Estádio Mané Garrincha às cinco horas. Chuva desabando. Cai mais forte quando descemos do carro. Portões ainda fechados. -“Se você quiser desistir basta pedir”, diz Geraldo. Não! Chegar até aqui e ir embora por causa da chuva? Canto: “Rain, I don’t mind. The weather is fine.” Olho em volta sentindo as vibrações. Apesar do temporal estão todos com ar de felicidade. Logo veríamos Paul McCartney! Mascates faturam vendendo capas de plástico. -“Apenas dez reais. Vão gastar mais com a pneumonia!” O clima é de sonho, mas meia hora na chuva é demais. Os protestos começam e a fila começa a andar. Pausa.  Parou por quê?  O senhor na nossa frente não pode entrar com o guarda chuva e faz drama. -“Meu guarda chuva inglês! Se eu deixar aqui vão sumir com ele.” Acaba concordando. Recomeçamos a caminhada. Apresentamos   os ingressos e seguimos. Uma simpática moçoila se achega me dando um folheto: -“É da campanha do Paul.” Ah, o pessoal de São Paulo que me esnobou. Recebo o folheto dizendo:  -“Segunda Sem Carne! Eu sou da campanha. Ela existe em Minas Gerais. Diga para o Paul, por favor.” Ela titubeia, sugere que eu procure outra pessoa, eu conto das tentativas vãs feitas antes e insisto: –“Dê meu recado. Ele vai gostar de saber que a campanha está crescendo”. Ela concorda. Geraldo comenta: -“Só que não vai dar.” Bom, eu cumpri minha obrigação. E agora? Sentar onde? Ele prefere as cadeiras em frente ao palco. Longe! Decidimos pela lateral, não tão perto quanto eu queria, mas com boa visão. São seis horas. Melhor sair e ir ao banheiro. Luciana quer comer algo. Eu tinha comido uma pera no carro. Estou sem fome, mas com frio. Vejo uma banca onde vendem camisetas “Out There”! Lindas! Luuh e eu escolhemos da preta. Visto a minha ali mesmo e o frio some. Sinto-me como se Paul estivesse me abraçando. Somos abordadas por uma senhora: -“São da organização?” Confusão devido à camiseta com foto de Paul. Continua: -“É que está faltando papel higiênico nos banheiros”. Explico que não somos… com tanta vontade de ser! A conversa me lembra da ida ao toalete. De fato sem papel higiênico! Voltamos aos nossos lugares. Vejo um rosto conhecido. –“Mercês!” Antiga contemporânea na escola. Peço notícias de Leila, minha amiga beatlemaníaca sumida e também amiga dela. “–Está aqui! Veio ao show” –“Onde?” Não a encontro, mas que bom saber que está bem, embora viúva. Geraldo recebe chamada no celular. É seu enteado na porta do estádio com o pai quase desistindo de entrar. O que? Fico  sabendo quem é ele.  Nos anos sessenta fazia parte de uma famosa banda de rock da minha cidade: “Os Heremitas!” Ele não pode desistir! -“Entramos”, informa Gustavo. Ufa. Geraldo bate fotos para a posteridade. Começo a me preocupar. E se eu sentisse mal ao ver Paul? Respiro consciente, procurando me acalmar. Uma, duas, três vezes. O show está atrasado. Há movimentação dos técnicos, tocam  músicas instrumentais de canções dos Beatles, a chuva ainda cai na pista lotada. Mostram imagens nos telões. Paul desde criança em Liverpool, depois com The Beatles, Wings, sua carreira solo… E então, de repente, lá está ele no palco: Sir Paul McCartney. Em carne e osso. A energia muda. O temor desaparece como por milagre. Sinto-me em paz e incrivelmente alegre. Olho o palco e em seguida olho o telão. Mágico telão. Alta tecnologia. Parece o próprio Paul, não apenas imagem, em dois pontos gigantescos. Ele nos convida a embarcar  numa viagem mágica e misteriosa “Roll up… roll up for the mystery tour”. Aceito o convite. Embarco em estase. “Save us” é a segunda música. Entro no embalo. Em seguida vem “All my loving”, soando tão nova como se de agora fosse. Duas do Wings: “Listen to what the man said” e “Let me roll it”. Eu solto a voz: “I can’t tell you what I feel, my heart is like a wheel…” E agora? “Paperback writer… writer…” Acho que vou voar. “My Valentine”, tão romântica. No telão vemos Johnny Depp e Natalie Portman na linguagem de sinais. “1985!” Que música boa! E qual não é? “The Long and Winding Road…” Vou chorar! “Maybe I’m Amazed”, “I’ve just seen a face”, “We can work it out”, “Another Day”… Vou cantando: “so sad, so sad, sometimes she feels so sad…” Vez de “And I love her”. Foi vendo Paul cantando essa música no cinema que me apaixonei por ele em 65! Meu inconsciente deve ter se lembrado daquela tarde de janeiro, pois algo inexplicável se apodera de mim. Sem planejar vejo-me gritando do fundo do coração… -“Paul, I love you!” Ele responde imediatamente, olhando para o lado onde estávamos: – “I love you too!” Custo a crer. Teria imaginado coisas?  Luciana confirma: -“Tia, ele ouviu!” Abro o coração e recebo seu amor. Se antes já flutuava, agora vejo o show em outra dimensão, em algum lugar assim como… o sétimo céu.  Agora ele canta “Blackbird”, um quase hino dos direitos civis. Arrepiante. Os arrepios continuam ao ouvirmos “Here Today”, uma declaração de amor a John Lennon. -“Essa canção é do meu novo CD”, diz em português. É  a deliciosa “New”, seguida de “Queenie Eye”, decorada por mim na véspera. Letras tão fortes, tão poderosas! Ainda no piano nos presenteia com “Lady Madonna”. Então vem música para a criançada. Para todos nós, pois ninguém ali parece ter mais de 17. “All Together Now”. Lá vamos nós “One, two, three, four, can I have a little more”. Hora de “Lovely Rita”. Perfeita. Levanta-se para “Everybody Out There” composta para nós. “Hey, everybody out there…” Ninguém fica de fora. Todos são incluídos numa unidade amorosa imensurável.  Somos um só com ele e não apenas nessa canção. Perco-me em seus movimentos. Como é leve! Sobe e desce os degraus, às vezes correndo, para um lado e para o outro, suavemente. Ao mesmo tempo, espalha faíscas elétricas. Aura visível em sua volta, brilhante, surpreendente. “Ahhhh look at all the lonely people”… O que estou fazendo? Uivando! “Eleanor Rigby” seguida de  “Being for the benefit of Mr. Kite!”. Cada música pede gemido, ou suspiro, de preferência gritos. Sem atrapalhar em nada. Podemos mergulhar em sua voz.

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“Something”. Momento de ternura para George Harrison. Foto enorme deles juntos. Todos nós embevecidos cantando: “I don’t know, IIIIII don’t know.” Vejo pessoas chorando, se abraçando, se beijando… Muito amor. Afinal, Beatles é Amor. Paul é Amor. Há algo místico no ar. Então a turma se levanta para “Ob la di Ob la da”, “Band on the Run” e “Back in the USSR”. Frenesi geral. Ele volta ao seu piano psicodélico e nos  transporta para um sonho: “Let it Be.” O ambiente se ilumina com as luzes dos celulares. 46.000 focos. Olho para o alto. O estádio parece flutuar, transformando-se, magicamente, numa nave espacial que viaja pelo universo. Os efeitos crescem ainda mais em “Live and Let Die”. Desde o início recebíamos os mais belos  efeitos de luzes, cores, imagens, mas nessa música suplantam tudo. Quem já viu sabe o que quero dizer. Quem não viu ficará sem saber porque é impossível descrever. Chega a ser… assustador. “Say live and lie die…” A coisa “pega fogo”. Labaredas sobem em explosões que chegam até aos céus. Um festival de luzes nunca antes imaginado por mim. A plateia grita extasiada. O delírio continua porque começa “Hey Jude”. Preciso falar mais? O que pode ser mais espetacular do que  cantar “na na na na na na na na” junto com Paul? Que privilégio. Finda a música ele deixa o palco. Luciana se levanta. “Tia, acabou,” –“Não. Ele volta.” -“Acabou, tia, vamos embora!” –“Ele volta”, digo confiante. Ele realmente volta com sua impecável banda. Atacam com três rocks do jeito que adoro. “Day Tripper, “Get Back”, “I saw her standing there”. Sai novamente. –“Tia, agora acabou mesmo.” –“Ele volta”. Luciana começa a pensar que a tia enlouqueceu de Beatlemania e Paulmania ao extremo. Tudo escuro! As luzes se acendem e lá estão eles no palco sob urros gerais. “Yesterday”. Hora de suspiros dobrados, de amor sem fim. Nem pisco olhando seu rosto. Como é bonito! As fotos, vídeos e filmes não mostram como ele é ao vivo. Sua suavidade de repente se transforma em ferocidade e sensualidade ao dar início a “Helter Skelter”. Após total ternura nos joga o mais sujo rock já composto. Choques termais. Eu só posso fazer uma coisa: Berrar! Onde estava aquela senhora que caminhava tremula com medo de cair? Estava ali literalmente pulando e berrando… “and I see you agaaaain…yeah yeah.yeah.” O estádio enlouquecido. Breve pausa para recuperarmos o fôlego porque lá vem dose cavalar de emoção. “Once there was a way…” “Golden Slumbers”. Final da Abbey Road Medley. Aguenta coração. “Boy, you’re gonna carry that weight…And in the end… the love you take is equal to the love you make.” Delírio. Agora sei que acabou. Vivo intensamente os últimos instantes, as últimas notas musicais, o brilho, a celebração, ele dizendo em português: “Até a próxima!” Sim, Paul, até a próxima!  Três horas tinham se passado sem que eu notasse. Poderia ficar mais! Vamos saindo. Vibrações de felicidade  chegam em ondas douradas. Agora é ir embora… mas onde está o carro? Em lugar incerto e não sabido. Dois amigos de Luciana chegam e ajudam na busca. Ouço uma voz infantil dizendo: “Mamãe, nós ficamos esse tempo todo respirando o mesmo ar que Paul respirava!” Uma criança que entende das coisas. Dou-me conta dessa graça… eu respirando o mesmo ar que ele. Tanto enlevo impede que me aborreça com a estranha situação do carro perdido. Após uma hora de procura o encontramos. Dia seguinte caio em mim. Eu tinha visto Paul. 50 anos de espera. Vale chorar um pouco. A dona da casa chega com a filha no final da manhã. Quer saber como foi nossa noite com Paul. Temos muito o que contar e rir. Gustavo junta-se a nós. Seu pai tinha dançado, cantado e levado baita susto no “Live and Let die”. Ambos curtiram ao máximo. Entro no seu quarto para ver seu trabalho de artista plástico. Alta criatividade e originalidade. Na sua parede está a capa do Revolver, trabalho de Klaus Voorman. Ganho de presente o que conseguiu gravar do show completando o registro de Luciana. Saímos de carro pela cidade passando pelas avenidas cheias de jacas e mangas por onde Paul andou de bicicleta. Chega a hora da volta. Como agradecer  tanta gentileza dos amigos, tantos presentes ofertados, tanto calor humano? Eu tento. Às 20 horas entramos no ônibus. Tudo parece igual. Mesmas poltronas, mesma passageira pequenininha sentada no mesmo lugar. Mas há duas diferenças: levo matula deliciosa oferecida pelos amigos: Pão integral com berinjela ao molho. E levo o coração tranquilo e aquecido, pois  dentro dele está o amor gritado por Paul em resposta ao gritado por mim. Agradecida, penso em minha mãe. Deve ter ajudado! Já cochilando recordo aquele diálogo, um presente  inesperado dos céus:

Virginia – “Paul, I love you!”

Paul – “I love you too”.

Forever.

Por Virginia A. de Paul(a)

2 Respostas para ““I’ll be back!” (Parte III)

  1. Helenita Ribeiro

    Que texto incrível,eu me senti no show lendo, é uma coisa que eu tenho vontade de fazer ir algum show do Paul ou do Ringo,para saber se tudo é real,cada vez que escuto Beatles é uma sensação única e surreal.
    Tenho quinze anos,meus amigos não gostam de Beatles,escutam Hey Jude, o resto reclamam , dizem que é muito parado, mas fazer o que?somos diferentes e isso nos torna amigos e torna a amizade especial, afinal John,Paul,George e Ringo eram diferentes.
    No último mês fui em um neuropsiquiatra que também é fã,devo dizer que isso foi a coisa mais incrível, ouvir de alguém que viveu a beatlemania, sofreu com a notícia da separação, com a notícia da morte de John e George , ele compartilhando os relatos,nossa cara foi muito incrível , meu amor por Beatles não veio de família,eu simplesmente estava em uma fase ruim e as músicas Blackbird e Hey Jude me ajudaram a melhorar e Imagine que é da carreira solo do John também.
    Enfim,desculpe por dizer tanta coisa,mas é isso que tornou esse texto de três partes tão especial, o amor com que ele foi escrito, um crítico que analisa o show friamente com o objetivo de as pessoas irem ou não ao show não conseguiria transmitir as emoções que são, o que na minha opinião são o que realmente importam quando se vai em um show.É uma alegria ler textos como esse por razão de ser fã é algo tão maravilhoso somente um fã pode entender e sentir de forma diferente,porém sem julgar o que cada um sente.
    Parabéns pelo texto maravilho e eu espero,um dia se chegar a ir a algum show do Paul ou Ringo saiba descrever de forma tão maravilhosa que proporcione a alguém que nunca foi sentir pelo menos da emoção inigualável que é.

  2. Hoje me deu na bistunta de vir até aqui e …eis que encontro seu comentário sobre meu texto, Helenita. Que emoção me deu saber que alguém sentiu um pouco do que senti, alguém “captou”. Consegui passar a emoção, algo que me parecia impossível. Obrigada. E torço para que você também possa ver um show dele ou do Ringo. E parabéns pela sua sensibilidade à música dos Beatles. Diga a seus amigos que os Beatles gravaram de tudo. Nem todas as músicas são lentas.🙂

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