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O Beatle Palestino

Por Ademir Luiz

Os Beatles são mais populares que Jesus Cristo. E não sei o que vai acabar primeiro, se o rock and roll ou o cristianismo.” [John Lennon]

St. George, St. Paul, St. John e St. Ringo

St. George, St. Paul, St. John e St. Ringo

Aquilo que antigamente chamávamos de Igreja Anglicana já estava extinta há séculos quando foi oficializado o culto aos Beatles na velha Inglaterra. Na realidade, não havia mais nenhuma das antigas instituições. Recomeçávamos a civilização, praticamente, do zero. Sabiamente, o novo governo que se instituía percebeu que não bastava apenas reerguer os prédios em ruínas e voltar a cultivar os campos abandonados às plantas daninhas. Sim, o populacho estava nu e faminto, mas não precisava somente cobrir e alimentar o corpo. Necessitava, sobretudo, de alimentar e aliviar o espírito. As muitas décadas de seguidas desgraças avivou-lhes o instinto de sobrevivência, mas não os privaram de suas naturais necessidades emocionais.

Sentiam falta de religião, sentiam falta de cultuar algo maior do que eles próprios, sentiam falta do inexplicável agindo em suas vidas. Em suma, o forçoso materialismo dos últimos tempos não curou a inata irracionalidade humana. Precisávamos remediar a situação em nome da ordem e do progresso.

Tínhamos que lhes dar ídolos, dar-lhes uma mitologia, dar-lhes uma entrada para o mundo transcendente; para que se esquecessem do trágico passado recente e tivessem forças para olhar para o futuro, que poderia ser promissor.

Assim, combateríamos os surtos de barbárie que assolavam certas regiões e, quem sabe, talvez até conseguíssemos diminuir o número de suicídios. Precisávamos de tantos braços para trabalhar quanto fossem possíveis e não podíamos dar-nos ao luxo de perdê-los por banalidades emotivas.

A primeira opção, logo descartada, foi utilizar uma obscura lenda de um rei bretão, talvez chamado Lancelot, que governou a ilha depois de retirar de uma árvore uma espada mágica que pertenceu a seu pai, um mago de nome Artur. A sugestão desagradou a muitos, pois os ingleses, tradicionalmente, sempre odiaram a monarquia. Não suportariam a ideia de adorar um rei que também é deus. Tivemos que buscar outras ideias. Decidiu-se, enfim, por usar o que estava mais fresco na memória coletiva do populacho: os Beatles.

St. Beatles Cathedral

St. Beatles Cathedral

Os quatro jovens de longos cabelos, inspirados pela providência divina para produzir sons, origem de todas as coisas. Entidade quádrupla que juntos formam um deus uno perfeito. Quatro emanações dos atributos do eterno. John: emanação da ira. Paul: emanação do amor. George: emanação da paz. Ringo, o deus que matou a Besta e tomou seu lugar: emanação da potência. Eis os mistérios da nova fé.

Lembro-me bem que a sugestão partiu dos deputados de Liverpool, então capital inglesa provisória, pois o lugar onde antes existia Londres existe agora uma cratera, quase um lago, devido a incessante torrente do Tâmisa.

Como se sabe, os Beatles nasceram (evento chamado agora de Natividade) em Liverpool. Pesou bastante na decisão o fato de que seria conveniente instituir ao mesmo tempo em que o culto pessoal, também a adoração a uma cidade sagrada. Não se concebe uma divindade sem uma cidade santa, poderosa em sua força telúrica, para ser alvo das devotas peregrinações dos fieis. Algo que sempre ajuda no crescimento da economia, aumenta o fluxo de viajantes nas estradas e, por conseguinte, de moeda em circulação e de trocas comerciais. Liverpool, sendo uma cidade grande, com quase dez mil habitantes na ocasião, reunia todos os predicados estruturais para assumir este importante papel.

Tivemos uma decisão feliz ao escolhê-la e escolher seus quatro rapazes. Não foi difícil instituir a nova religião. Sobretudo porque, ao contrário de quase todo o resto, não eram tão raras as imagens gráficas do quarteto. Felizmente, muitas delas sobreviveram aos grandes incêndios do início do século passado e, por mais sorte ainda, da proibição da posse de papel pintado pelos tiranos derrubados no início deste século.

Diversos indivíduos, creio que sem saber bem o porquê, mas incentivados pelos pais e avôs, que por sua vez foram incentivados por seus respectivos pais e avôs, guardavam com todo cuidado estas imagens há várias gerações. Exibiam-nas orgulhosos em encontros sociais, como objetos de imenso valor. Lembranças de um passado glorioso.

Sabemos até que muitos foram os casos de assassinatos cometidos pela posse destas raridades, hoje relíquias. Já existia, portanto, um culto insipiente, extra-oficial. Seus rostos já eram vagamente conhecidos pelo populacho, como algo digno de admiração. Precisávamos apenas canalizar esse potencial sacro para algo organizado dogmaticamente. Criar suas verdades. Porém, se seus rostos eram de conhecimento vulgar o mesmo não se pode dizer de sua história.

Provavelmente St. George

Provavelmente St. George

Para a esmagadora maioria das pessoas, os Beatles eram apenas sorridentes rostos sem passado. Não se sabe por que riem. Nem mesmo nossos cidadãos mais cultos tinham acesso a informações precisas sobre os Beatles. O material escrito disponível era irrisório. Com quase a totalidade de nossos livros destruídos, a preservação de nossa tradição cultural tornou-se bastante deficiente. Possuíamos apenas sombras, nuanças, fragmentos, de nosso passado, onde os Beatles foram personagens tão importantes. Restava, é claro, a tradição oral. Seus exageros gritantes, que para nós, homens cultos, constituíam em pecado, agradavam sobremaneira ao populacho. Deu-nos farto material para sua doutrinação.

Baseados nestas parcas e maleáveis informações, funcionários do governo, escribas, desenvolveram toda uma ortodoxia. Bela, sedutora e gloriosa coleção de narrativas sacras, de exemplos de vida, parábolas, fábulas, discursos, sermões; lidos inicialmente em separado e posteriormente reunidas em um único volume. O populacho chamou-o de White Book. É sempre melhor que eles mesmos o batizem. Mostra fé. Em toda esta mitologia religiosa nascente, nada era mais importante do que o fato de que os Beatles eram músicos.

O aspecto musical foi um elemento importantíssimo na difusão do culto. O principal dogma da religião apregoava a verdade de que Beatles cantavam e tocavam seus respectivos instrumentos divinamente, como ninguém antes ou depois deles, com arte tão grandiosa que eram capazes de criar vida.

Apesar de todas as vicissitudes, o gosto pela música nunca se perdeu em nossa ilha. Aconteça o que acontecer o espírito humano sempre foi e sempre será musical. Nada mais justo que acreditarem que o mundo foi criado através da música. Criado pelo supremo mistério da música dos Beatles, em sete acordes, tão longos e poderosos que duraram cada um sete dias e sete noites. Antes só existia o silêncio. Trata-se sem dúvida de uma bela metáfora, talhada para o sucesso. Como de fato o foi. E o foi principalmente porque, tantos séculos depois de suas mortes, tivemos o privilégio de ouvi-los.

Sabíamos que em um passado remoto existiam aos milhares registros sonoros de suas obras musicais. De modo miraculoso, máquinas reproduziam o som de seus instrumentos, sem que eles necessariamente estivessem presentes.

Relíquia sacra

Relíquia sacra

Lamentavelmente, só restavam em toda ilha três cópias conhecidas dos discos plásticos que guardavam estes sons. Foram devidamente confiscados e tornaram-se propriedade pública. Não conseguimos, ainda, reproduzir os objetos como se fazia há tempos. Com esforço, fomos capazes do prodígio técnico de fazê-los tocar. De forma precária, é verdade. Por isto mesmo, fomos obrigados a permitir a execução pública das músicas dos Beatles somente em datas religiosas especiais. Ao todo, cinco vezes por ano: nas datas de nascimento de cada integrante do grupo e no aniversário do martírio de um deles.

As audições públicas somente se dão, por motivos logísticos e de segurança, em nossa capital política e religiosa de Liverpool. O que por um lado é positivo, pois a raridade aumentava o valor e o peso sacro do evento. Prova disto são os inumeráveis crentes que desmaiam emocionados ao ouvir, pela primeira e, muitas vezes, última vez na vida, depois de viagens extenuantes, os acordes arranhados dos sagrados instrumentos, seguidos de alegres gritos juvenis proferidos pelas sagradas gargantas dos Beatles. Se as vozes originais raramente podem ser ouvidas, em compensação em cada templo existente no interior da ilha abundam cópias das partituras das sacras canções, mantendo-as sempre pulsantes, frescas na memória do populacho.

Nossos sacerdotes, que chamamos de maestros, aprendem, antes de mais nada, como base de suas formações religiosas, ler e conduzir música. Ciência que, felizmente, ao contrário de muitas outras, não se perdeu e são bastante úteis na direção dos cultos públicos ao quarteto, feitos basicamente de cânticos à capela e recitações poéticas. As técnicas e os instrumentos disponíveis atualmente, é claro, não são os mesmos dos tempos de ouro dos Beatles. Época em que homens viviam na inocência do paraíso terreal, em fartura, bonança e contentamento. Todavia, mesmo imperfeitos, procuram se aproximar o máximo possível do que acreditamos ser seus ensinamentos fundamentais, seus tons.

Mas, enfim, as verdades teológicas são sempre assuntos amplos demais para se esgotarem em poucas páginas, e as minhas acabam. Sobretudo, quando o destino da religião focada tende a expansão. Pois, se a velha Inglaterra viveu tempos de paz e progresso sobre a proteção dos Beatles, seus filhos, não demorou a que outras nações europeias que se reerguiam, e com as quais recomeçávamos a praticar comércio, adotassem o culto. Não há nada que faça-nos duvidar de que a difusão da religião será surpreendentemente rápida. Chegará a todo o mundo, quando voltarmos a ter possibilidade de comunicação com as paragens mais distantes. Não restam dúvidas disto. Certamente não vou viver para testemunhar sua extensão máxima. Mas, aí de mim, já vivi o suficiente para ver agir a maldade humana nas coisas sagradas.

Foi no País de Gales onde se urdiu a mais deplorável das inevitáveis heresias que surgem das erradas interpretações das santas verdades da fé. Um sujo eremita galês, vestido em trapos, ganhou fama pregando ao populacho sobre a gloriosa volta eminente de um impossível beatle palestino. O fanático garante haver encontrado, nas ruínas do que dizem ter sido uma igreja anglicana (um velho culto pagão), manuscritos antigos que afirmam que os Beatles não eram quatro, mas, sim, cinco deuses.

Stu, ou Jesu

Stu, ou Jesu

Esta Quinta pessoa do Eterno teria o nome de Stu, ou Jesu, ou ambos, não estou certo, e representaria a emanação da dor. Não toca nenhum instrumento e não canta, não possui tanto talento quanto seus irmãos, apenas conta histórias sobre pescadores e agricultores. Não é originário de Liverpool, mas de uma região muito distante, que, para nós, homens letrados, é meramente lendária, conhecida como Palestina; terra muito rica e fértil, onde emanam leite e mel das plantas e os tijolos são feitos de ouro.

Segundo o heresiarca de Gales, o beatle palestino sacrificou-se aos rigores dos sons para salvar nossas almas do pecado. Teve sua cabeça explodida pelo barulho ensurdecedor da poderosa música de seus irmãos. Seu holocausto deixou marcas. O beatle palestino, além dos cabelos, também usava barbas longas, tão longas que chegavam a seus pés.

Depois de sua morte, seus quatro irmãos sobreviventes dividiram sua barba entre si, para que nunca o esquecessem e para que houvesse fartura na Inglaterra. Stu, Jesu, voltaria para recuperar sua barba no fim do mundo, que, segundo o louco, estava próximo.

St. John Lennon

St. John Lennon

Ano passado o eremita galês foi apedrejado por uma multidão inconformada com suas blasfêmias. Morreu, cuspindo sangue aos jatos, jurando em brados ameaçadores que falava a verdade e que todos nós iríamos nos arrepender amargamente, que iria haver fome, choro e ranger de dentes, em vingança divina por sua morte. Ninguém lhe deu atenção. Todos sabiam que dentre os santos Beatles apenas um deu a vida para nos salvar: John.

Aconteceu em dezembro, dia 08 de dezembro; e por isto neste mês se comemora a festa do natal, ouvindo a sua voz em Liverpool.

Ademir Luiz é doutor em História Medieval, especialista no mito do Rei Artur e na Ordem dos Templários. Publicou diversos textos na internet, incluindo o polêmico “Pecados, demônios e tentações em Chaves” (Revista Bula). Escreveu alguns contos, como “O Beatle palestino”, e os romances Hirudo Medicinallis – ou carta aberta de um vampiro de brinquedo ao espectro de Orson Welles (Prêmio Cora Coralina, 2002) e Fogo de junho (Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, 2014). Mora em Goiânia, Goiás.

Fonte: Beatlebox

2 Respostas para “O Beatle Palestino

  1. Sim! Que preciosidade. Que ideia original. Sabemos aí que o Ademir é Dr. Ademir. Doutor em Historia Medieval, e talvez por isso, ou com certeza por isso, criou esse impecável texto para que nossas almas possam sorrir. E meditar. Me fez lembrar uma conversa que tive com um amigo recentemente. Na verdade, é um profissional de informática que veio aqui em casa por esse motivo. Não sei como foi que veio à baila o assunto Beatles. Ele é jovem e quando nasceu os Beatles já tinham se separado. Disse que os admirava, mas deu para ver que não era realmente um fã. Não como eu, pelo menos. De repente eis o que ele me falou: “Eles são muito importantes para o mundo, porque desde Jesus que não havia nada parecido. Depois de Jesus só mesmo The Beatles.” Eu quase caí dura para trás. Tirem a conclusão que quiserem. E agradeço ao Beatles College por esse extraordinário texto. Ei,numa das fotos mostradas vem escrito provavelmente Saint George. Não entendi. O rosto é de Paul!

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