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“I’ll be back!” (Parte II)

(Keep on sending your love)

Veja aqui a primeira parte desta matéria.

paul-mccartney-montevideo-2014

Ao ler a notícia sobre Paul de volta ao Brasil sinto tristeza.  Não suportaria perder seu show mais uma vez e não acreditava poder ir. Como diria minha mãe, estava muito “serra acima”. Teria de vencer tantos obstáculos! Em conversa com fã americana ela me ordena: “Compre a entrada. Se não der certo, não deu. Compre e procure ir. É um espetáculo inesquecível”.  Na minha resposta vou escrevendo que falta companhia, falta saúde, grana curta… De repente vejo Paul na minha mente chegando. Completo a resposta dizendo que sim, eu me empenharia. Pergunto no Facebook: “Quem está indo?” Vem resposta da Escócia. Uma prima que ali mora insiste que eu vá. Um amigo me desanima. “Podemos ver tudo tão bem nos DVDs! Bem melhor do que num estádio onde vemos de longe. Além disso, é tempo de chuva!” Verdade. Para poder ver Paul de perto só mesmo na pista e sem garantia. Pessoas nos empurram, eu sou pequenininha… Relembro minha ida a São Paulo para ver o show da Anistia Internacional.  Anos oitenta, eu jovem, bem disposta. Peguei o ônibus  para São Paulo sem precisar de companhia.  Fui sozinha para o estádio sem conhecer vivalma.  Em pé o tempo todo. No início vendo bem. Logo mil pessoas altas na minha frente. Eu tinha de olhar pelo telão de imagem longe da perfeição. Mesmo assim gostei tanto! E teve aquela hora que me empurraram para perto do tapume. Não via nada do palco. Mas o bendito Sting de repente surgiu na minha frente como um raio de sol. Ainda sinto arrepios… Sim, o certo seria na pista. Mas não dou mais conta. Eu teria de ficar longe do palco, numa cadeira, confortavelmente vendo Paul. Claro que valeria a pena!

Assusto ao saber que ele viria a Vitória. Lembro-me de uma amiga que mora naquela cidade. Daisy. Também fã dele! Será que iria? “Não tenho mais seu endereço e Vitória é tão longe!”, penso em voz alta. –”Mas Brasília não é tão longe assim, tia”, diz Luciana me animando. Dez horas de ônibus. Chegaria com os pés inchados? –”Lu, você iria comigo?”–”Sim!” Viva, primeira dificuldade vencida. No mesmo dia passo um e-mail a um amigo de Brasília. Conto da minha vontade de ver o show. Ele responde que sua esposa estava indo e agora, com minha presença, ele iria também. Poderia ficar em casa deles. O que? Outro obstáculo vencido! Então descubro algo terrível. Meu cartão de crédito bloqueado. Vou ao banco, não sabem informar, dizem que desbloqueariam… Os dias passam e o bloqueio permanece. Sem cartão, sem possibilidade de comprar as entradas. Volto ao banco. Descobrem o motivo. Falta de pagamento em setembro. Venho em casa, pego o comprovante, retorno ao banco. Rejeitado. Por quê? “Você fez o pagamento, mas recebeu a mesma quantia de troco”, me informam. Loucura. Mas é o que dizia o comprovante. Faço novo pagamento. –”Amanhã estará desbloqueado.” Dia seguinte permanece o bloqueio. –”Pode haver uma demora de cinco dias úteis”, diz a simpática bancária. Seria tarde demais. Luciana não aguenta. “Precisam liberar logo ou vamos perder o show do Paul McCartney!” A moça abre um sorriso. “Ah, se eu pudesse iria também! Vou falar com o gerente”.  Tudo acertado. Dia seguinte cartão liberado.  Mais uma vitória!

Começo a dar trabalho a amigos, pedindo dicas. Troco e-mails com Edcarlos.  Ele responde todos com sua gentileza habitual. Participo de um bate papo no Beatles College com outros fãs querendo ir. Todos estressados. Alice teme não conseguir. E seria um presente de aniversário! 15 anos. Emocionante ver este senhor de 72 anos sendo tão querido por jovens. Chega a terça. Ansiedade. Vivência de algo totalmente novo e espetacular: comprar ingresso para ver um show de Paul! Muito treinamento antes. Todos os receios chegando. E se eu não conseguir? E se venderem todos antes da minha vez? E se eu não souber entrar no site? Ainda teria chances no dia seguinte. Estava tentando a pré venda para os membros do fã clube. Eu sou inscrita. Passo a noite acordada sem sono algum.

Seis horas da manhã. Acordo Luciana para fazer a compra por mim. Caminho sem parar  pelo corredor. – “Tia, comprei!” Lágrimas descem pelo meu rosto.  Quarto obstáculo vencido. Ligo para Geraldo. – “Comprou inteira? Mas Vija, somos idosos. Temos direito a meia entrada!” Eu disso não sabia. E agora?  Tudo resolvido. Ele compra no estádio. Começa a peleja para cancelar os ingressos comprados na Tudos. E se Geraldo perder os ingressos? “Estão presos com um imã no computador. Seguros. Pode cancelar”. “E se não aceitarem minha identidade? E se eu for barrada na porta?” – “Tia, o que é isso? Relaxe!” Ligação para a Uai. – “Quero saber se tenho direito a meia entrada em shows. Minha carteira não tem carimbo atestando ser idosa.  Vale?” Sim, vale. Alívio.

Paul McCartney On The Run Tour

A cada minuto nova preocupação. E se acontecer algo com ele? Xô neura. Respiro fundo, peço por limpeza, rezo por ele e por nós. Lembro de um filme visto há tempos. Meninas indo ao show dos Beatles e conferindo se os ingressos estão mesmo nas bolsas, de minuto em minuto. Estou que nem elas.  Coração de 17 anos. Corpo de 66. “E se eu não conseguir subir no ônibus?” Luciana descobre que a viagem de avião está mais barata. Já estou cheia de pânicos, seria só mais um, então tudo bem. Vamos de avião. -“Tia, voo lotado!” O que? Negócio é ir logo comprar as passagens de ônibus.  Onde? Qual é a empresa? Vamos até a rodoviária. Fechada! “E se? E se? E se?” Dia seguinte estamos com nossas passagens em nossas mãos. Olho incrédula para elas… Outro obstáculo vencido. Então, no Facebook, descubro algo que me derruba. O pessoal do “Segunda Sem Carne” de São Paulo estaria presente em todos os shows viajando com Paul. “Pare de ser invejosa”, digo para mim, já roxa de inveja. É que eu sou da “Segunda Sem Carne”. Lancei, com amigos, a campanha em 2010. Fiz registro no site oficial. Não me convidaram! Vejo a entrevista do Paul dizendo que a campanha está crescendo, e que no Brasil tem em São Paulo… –”Paul, tem em Minas Gerais!” Faço contato com o pessoal com cuidado para não ser desentendida. Poderiam imaginar que eu tencionava pegar carona com eles. Não seria nada mal um alô do Paul, mas bem sabia que eram convidados e sem poder para tais decisões. Um recado para ele seria possível? Para que soubesse da nossa existência? Por motivos deles, não sei quais, me ignoram. Lembro novamente da ida a São Paulo. O pessoal da Anistia Internacional me recebendo de braços abertos. Noite de Chopp no Bar Tollo no dia seguinte ao show. E se eu estivesse me boicotando? Se assim fosse, eu poderia boicotar a viagem! Chega uma novena de Santa Terezinha pelos correios. Faço a novena. Pedido: remoção dos bloqueios. Uma novena diferente que não pede sinal com presente de rosas. Mesmo assim, no último dia eu peço pelo sinal. Eis que Lita chega da rua com um bouquê de rosas amarelas. “Achei no lixo…” “Eu vou! Obrigada, Santinha!”.

Dia 20. Meus olhos começam a arder. Melhor procurar um oftalmologista. -“Leve conjuntivite. Está nervosa? Fique tranquila ouvindo os Beatles…” Que belo conselho do Dr. Cláudio. Conto da viagem. – “E você vai sim! Leve estes colírios…”.

Dia 21. “Tia, no domingo você vai ver um Beatle! Já caiu a ficha?” –”Sim, Luciana. E se eu passar mal? E se cair desmaiada na hora que ele aparecer no palco? E se eu tiver de sair de maca?” Idosa desfalece ao ver Paul McCartney… “Além do vexame ainda perco o show.” Começo a rir… mas por dentro sinto receio. Pois se perdi as forças quando vi José Wilker! Olhando as rosas encontradas por Lita recupero a confiança.

Dia 22 de novembro. Em preparo. Bem uns vinte anos sem viajar. Nem sei mais como fazer malas! Penso em minha mãe. Sei que está feliz. Gostava dele… Talvez  tenha me ajudado, talvez esteja indo comigo! Nervosismo. Para melhorar vou de Rescue, gotas florais de Bach. Entro no Facebook e quem vejo? Paul! Tão lindo, andando de bicicleta, espalhando amor pelas ruas de Brasília. Bateu aqui. Sinto a energia e respiro fundo.

Anoitece. Luciana ainda na fábrica. E se ela atrasar? Não atrasa. Despeço-me de Lita quase chorando. Às 19h e 55 minutos entramos no ônibus. Não é leito! Como viajar dez horas assim? Luciana coloca as sacolas e um travesseiro sob minhas pernas. Além disso a cadeira da frente está vazia. Coloco os pés para o ar apoiados nela. “É, tia. Estamos indo mesmo.” O comentário de Luciana leva-me até 1970 quando, sentada no avião para Londres, ouço um rapazinho dizendo a outro. “Estamos indo mesmo”. Dou-me conta que desde aquele dia só agora sinto emoção parecida. O ônibus começa a andar. Recordo uma antiga canção de Milton Nascimento. “Com a roupa encharcada e alma repleta de chão, todo o artista tem de ir aonde o povo está…” Paul faz assim. Com sua tournée “Out There” tem ido onde nós estamos… O povo Beatle, seus fãs de tantas eras. Que presente. Fecho os olhos agradecida. O som da sua voz surge como que trazido por esta brisa que bate no meu rosto: “Keep  on sending you love, cause in the heat of battle, you’ve got something that could save us, save us  now… ohhhhhhhhhh…” Adormeço sorrindo.

(Fim da segunda parte)

Por Virginia A. de Paul(a)

5 Respostas para ““I’ll be back!” (Parte II)

  1. “Para cantar, nada era longe, tudo tão bom, pé na estrada de terra na boléia de caminhão, era assim”. E que Milton me permita acrescentar “É assim”. Pra quem canta e pra quem escuta….
    Aqui, lá, em qualquer lugar levamos a música deles, sua dedicação, seu amor… somos de uma mesma família. Uma família que sente parecido, mas que se sente única!
    Você tem mais experiências que eu, pôde ver os quatro juntos em uma banda, acompanhar tudo o que acontecia, viu a efervescência da beatlemania no Brasil, teve a honra de ir a Londres…… e talvez você jamais imaginasse, que mesmo podendo ter encontrado com ele várias vezes, foi aqui.
    Ele veio até você Virgínia…. eles pediram para que você esperasse (Wait till I come back to your side, We’ll forget the tears we cried). E você esperou…. e aos trancos e barrancos, lá você foi.
    Todo o processo do show nos consome, o antes, o durante e o depois. E chega o momento em que escutamos um sussuro “deixa ir”. Por que no fim, você não sabia que ia acabar tudo bem?
    No fundo, nós sabíamos…. e mesmo que eu não tivesse conhecido nem você nem Alice quando fui ao show, eu senti que carregava nos ombros a vontade de estar ali de duas outras meninas…
    Obrigada Virgínia. Você me fez voltar para aquilo que se sente durante a preparação do show. Não há sensação mais incômoda (o “e se”) mas não há nada mais revigorante do que “não carregue o mundo nos seus ombros”.
    Obrigada também por me servir de inspiração (você e o comentário de Alice) para o texto que fiz sobre o show do Paul!!🙂
    Ah, mudando de assunto, mas nem tanto, sonhei com você e com Alice comentei aqui: https://beatlescollege.wordpress.com/2014/10/16/pre-venda-para-show-de-sp-e-marcada-por-erros-e-confusao/#comment-19720
    Depois me contem!🙂
    Obrigada novamente Virgínia!

  2. Mariana, obrigada por tão lindo comentário. Vou pedir a meus amigos que venham ver meu texto e o seu comentário também. A propósito, compartilhei seu texto no meu face. E li sobre o sonho. Respondi! Fiz comentário lá na página.🙂 Juro para você que tive medo de sentir mal durante o show. Muita emoção. Mas foi tudo muito lindo, e me comportei bem, sem desmaiar. KKK. Esse será o assunto do próximo Tantas coisas que eu tive de dividir em três partes. Quando começo a escrever sobre eles não quero parar.🙂 Obrigada também. Saber o que os leitores sentem é da maior importância.:)

  3. Que viagem Virgínia. Recoradr é viver. Parabens!!!!!!

  4. Agradecendo a Rafael pela presença e comentário. Algumas pessoas comentaram no meu facebook embora eu tenha informado que os comentários devem ser feitos aqui! Obrigada por ter vindo até aqui, Rafael.

  5. Pingback: “I’ll be back!” (Parte III) | The Beatles College

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