Galeria

Rooftop Concert – 30 de janeiro de 1969

Há exatos 46 anos, os Beatles faziam sua última aparição pública, apresentando-se de surpresa no terraço do prédio da Apple, o nº 3 da Savile Row, em Londres. O “rooftop concert” ficou marcado por representar a fase final da banda, cercada de tensão e disputas internas.

Para entender o motivo do show, é preciso voltar mais um pouco no tempo e lembrar dos problemas vividos pela banda nos dois últimos anos. Uma mistura de fatalidade, inexperiência e cansaço mudou o rumo do maior grupo musical da história.

Morte de empresário: Início do Caos
1967 – A morte de Brian Epstein, a decisão de tomarem conta dos negócios da banda (mesmo não tendo nenhuma experiência no assunto) e o fracasso do filme “Magical Mystery Tour” abalaram a imagem que os Beatles tinham de um grupo sólido e imbatível.

1968 – Após toda a loucura psicodélica do ano anterior, a criação do “sonho impossível”, materializado na Apple Records, a gravadora-produtora-promotora que prometia investir e lançar qualquer projeto artístico que despertasse o interesse dos Beatles (ou de pelo menos um deles), gerou um enorme desgaste em cada um.

Além disso, os Beatles estavam produzindo um novo disco, baseado nas canções compostas no período em que estavam meditando na Índia. O único disco sem título, que ficou conhecido como Álbum Branco, é o mais eclético do grupo, mas também mostra um certo individualismo, presente na produção de cada faixa.

Problemas na administração e entrada de Allen Klein
Praticamente falidos, devido à desorganização na contabilidade da Apple, a saída seria a contratação de um empresário. Paul McCartney queria que Lee Eastman, pai de Linda, assumisse o cargo que só havia sido ocupado por Brian Epstein, mas John Lennon achava que Paul seria beneficiado, caso seu sogro administrasse os interesses da banda. John queria Allen Klein, ex-empresário dos Rolling Stones, maior picareta da história do Rock, que queria a todo custo, empresariar a maior banda do mundo. Paul não assinou, mas os outros 3 Beatles aceitaram Klein como novo empresário.

Volta ao começo: Ou vai ou racha!
Com o desgaste emocional e o descontentamento, surgiram as discussões mais sérias e a banda quase não se entendia mais. Todos tinham seus projetos próprios e parecia que o grupo estava impedindo o crescimento individual. Pensando em unir a banda novamente, Paul McCartney surge com uma nova idéia para 1969: uma volta às origens, onde a banda abandonaria os vários recursos de estúdio, colagens e overdubs, produzindo um novo disco de rock bem mais “cru”, como nos primeiros tempos da beatlemania. Nascia então o projeto “Get Back”.

Como a ideia era voltar aos moldes do grupo na primeira fase, os Beatles voltaram ao prédio usado para a foto do primeiro disco e fizeram uma nova sessão, numa versão envelhecida de “Please Please Me”. Essa foto seria usada posteriormente, na coletânea “The Beatles 1967-1970”.

Filmagens transformam sessões em Reality Show

Paul teve a ideia de contratar uma equipe de filmagem e produzir um filme que mostraria todo o processo de criação do novo disco. Foi uma espécie de BBB – Big Brother Beatles, onde tudo foi filmado, inclusive o descontentamento e as brigas entre a banda.

Billy Preston, Yoko Ono e uma bomba-relógio

Os ensaios eram repletos de “jams”, onde os Beatles se divertiam tocando clássicos do rock que ouviam desde a adolescência. Assim, várias novas composições foram surgindo, produzidas à moda antiga. O tecladista Billy Preston foi convidado a participar das gravações, o que serviu também para acalmar os ânimos entre o grupo, que em determinado momento não se entendia mais. Ringo, que já havia saído do grupo no ano anterior, não suportava mais as brigas. Após uma séria discussão com Paul, George também decide abandonar a banda, mas foi convencido a voltar. O desinteresse de John era visível e a presença de Yoko no estúdio passou a incomodar a todos.

Em meio a essa panela de pressão, a banda começa a pensar na possibilidade de uma apresentação pública, onde tocariam as novas canções. Mas com tanto descaso, a melhor idéia foi de subirem ao telhado para um show surpresa, quase sem compromisso.

A última apresentação
Na quinta-feira fria de 30 de janeiro de 1969, os Beatles subiram ao terraço da Apple e por 42 minutos, fizeram sem saber, uma das mais importantes aparições da história da música.

As pessoas que passavam na rua se aglomeraram para tentar entender porque os Beatles estavam fazendo um show em cima de um prédio, praticamente sem plateia e tocando músicas desconhecidas.

O repertório contou com “Get Back”, “Don’t Let Me Down”, “I’ve Got a Feeling”, “One After 909” e “Dig a Pony”. Foi quando o engenheiro de gravação, Alan Parsons, notou que a fita havia acabado e pediu um tempo para trocá-la. Durante esse período, os Beatles tocaram ainda “God Save the Queen” e uma parte de “I Want You (She´s so Heavy)”, que infelizmente não foram registradas.

Thanks, Mo
Ao fim de “Get Back” é possível ouvir os aplausos ao fundo e o agradecimento de Paul McCartney: “- Thanks, Mo”. Era Maureen Cox, esposa de Ringo, que aplaudia a apresentação.

Com tanto tumulto e barulho, a polícia foi acionada e enquanto os Beatles tocavam, alguns amplificadores foram desligados. No documentário “The Beatles Anthology”, Ringo comenta que seria um excelente fim para as filmagens, se ao invés de pedir que abaixassem o volume, a polícia o arrancasse da bateria no meio do show.

Após a apresentação, os Beatles engavetaram todo o projeto “Get Back” e desistiram de lançá-lo, devido à falta de qualidade das gravações. Terminava o show e também a possibilidade de manter o grupo unido como nos velhos tempos. Projetos paralelos, falta de pensamento coletivo e troca de acusações tornaram a convivência insuportável.

Porta de entrada da Apple

Abbey Road, o canto do cisne

Apesar disso, meses depois, Paul McCartney acionou George Martin, que não havia sido chamado para o projeto “Get Back”, e o convenceu a produzir mais um disco dos Beatles. Martin concordou e mesmo sem a velha harmonia entre eles, surgiu o disco Abbey Road, um dos mais lindos trabalhos da banda, que mistura a dor e o alívio da separação; algo que já era certo, apesar de não ser falado abertamente.

Phil Spector e a “Wall of Sound”
Em janeiro de 1970, os Beatles decidem resgatar as fitas de “Get Back”, engavetadas há um ano, e ver se havia algo a ser aproveitado. Devido às declarações de John Lennon, que criticara o trabalho de George Martin, o produtor dos Beatles não quis se envolver no projeto. Com isso, John Lennon confiou todo o material a Phil Spector, conhecido por sua “muralha de som”, capaz de esconder qualquer defeito nas gravações originais.

Para muitos, Phil Spector destruiu a espontaneidade do projeto, acrescentando cordas e corais em meio às gravações. Paul McCartney nunca se conformou com o tratamento dado às suas canções, mas só ouviu o resultado final após receber o LP pelos correios. Já John Lennon acreditava que Spector tinha “tirado leite de pedra”, salvando gravações mal feitas que certamente iriam para o lixo. O excêntrico Phil Spector ainda produziu discos das carreiras solo de John e George.

Lennon: “I’d like to say thank you on behalf of the group and ourselves and I hope we’ve passed the audition”

Com a inclusão dos recursos usados por Phil Spector, a ideia de “volta às origens” não fazia mais sentido e o título do disco foi mudado para “Let it Be”. Um livro com fotos das sessões foi lançado junto do LP cuja capa mostrava o aviso do fim: pela primeira vez, os Beatles apareciam separados em um disco. Após a última faixa, o sarcasmo de John Lennon  anuncia: “Quero agradecer em nome do grupo e esperamos ter passado na audição”.

.

Por Edcarlos da Silva
@edcarlosdasilva

Leitura complementar:

Magical Mystery Tour – Canções extraordinárias para um filme nonsense

O “início do fim” em Álbum Branco

And in the end…

Let it Be – O fim anunciado

7 Respostas para “Rooftop Concert – 30 de janeiro de 1969

  1. Eu não acredito que se perdeu a chance de gravar a I Want You ao vivo por falta de fita
    *——————————————–*

  2. Julio Cesar Fernandes

    Santa pindaíba Batman….

  3. Adriano Araújo - Americana SP

    Bom dia!

    Há dois momentos na história dos Beatles que eu gostaria de estar presente, A manhã de 22 de Agosto de 1969 e a manhã de Janeiro do mesmo ano. Pena que o George não cantou nenhuma música dele. Dá pra notar que o caçula de Liverpool estava puto da vida com as suas músicas rejeitadas, com a Yoko, com as exigências de Paul, enfim, mesmo assim aquele momento foi um marco na história da música.

    Abraço.

  4. Pingback: 05 de Fevereiro no dia-a-dia dos Beatles | The Beatles College

  5. É COM GRANDE EMOÇÃO QUE EU, AGORA NO “FRESCOR” DE MEUS 57 ANINHOS, REVELO A TODOS QUE EM 1970 NA “MATURIDADE” DE MEUS 13 ANOS ASSISTI O FILME “LET IT BE” DOS BEATLES…!!! ISSO FOI POR ACASO, POIS EU MAIS MEU AMIGO WILSON FOMOS ATÉ O CINE MAX EM SÃO CAETANO DO SUL SITUADO NA RUA CONDE FRANCISCO MATARAZZO SEM QUE SOUBÉSSEMOS QUE DIABO DE FILME ESTAVA SENDO EXIBIDO…E ENTÃO DEMOS DE CARA COM O CARTAZ NA FACHADA DO CINEMA COM ESSE ANTOLÓGICO TRABALHO DOS CABELUDOS DE LIVERPOOL..!!! DISSE TUDO ISSO PARA INFORMAR QUE ESSE SHOW IMPROVISADO NO TERRAÇO DA APPLE NA FRIA QUINTA-FEIRA, 30 DE JANEIRO DE 1969 FOI APROVEITADO COMO ÚLTIMA CENA DESSE FILME( LET IT BE ) QUE VIROU DOCUMENTÁRIO ANTOLÓGICO, POIS REALMENTE FOI A ÚLTIMA VEZ QUE THE BEATLES SE APRESENTARAM EM PÚBLICO…!!! DURANTE O DESENROLAR DO FILME FICA EVIDENTE QUE ELES (BEATLES) JÁ NÃO SE SUPORTAVAM…!!! ME LEMBRO DE UMA CENA EM QUE PAUL DIZ PARA O GEORGE: “…ACHO QUE ESTOU SEMPRE LHE CHATEANDO, NÉ.?..” AO QUE GEORGE DE PRONTO RESPONDE: “…ESTÁ BEM…ENTÃO VOU TOCAR O QUE VOCÊ QUISER…OU NÃO TOCAR NADA..!!!…”. FICARIA AQUI MUITAS HORAS FALANDO DO FILME MAS ISSO ME TORNARIA PROLIXO DEMAIS…UM CHATO..!!! VALEU AMIGOS…MUITO OBRIGADO POR ME CEDER ESSE PRECIOSO ESPAÇO…!!! DEUS ABENÇOE A TODOS..!!! ( MARCÍLIO ELVIS-SOROCABA-SP, SEXTA-FEIRA, 03 DE OUTUBRO DE 2014 ).

    • João Arnaldo

      Mas olha só! Um conterrâneo aqui.

      Caro Marcílio, estamos na mesma cidade (de trânsito caótico): Sorocaba. Bem vindo, amigo!

      João Arnaldo.

  6. Como seria bom se John e George fossem vivos…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s