Galeria

So long ago… (Parte I)

the-beatles-11980. Longe está aquela menina de 15 anos que se encantou por um quarteto musical de terras distantes. Aos 32 anos, Virgínia leva uma vida sem graça e sem objetivos. Tinha acreditado num sonho colorido não bem definido, mas incrivelmente belo. Em 1969 sente que algo não está bem… e então, no final de 70, vem a certeza do que pressentia: o sonho tinha acabado. John Lennon, um dos arquitetos, oficializa seu final na dolorida e afiada música “God”, onde também lista tudo em que não mais acredita. Um pouco de niilismo faz bem em tempos de crise. Mas tem de ser total para boa limpeza interna. John ainda acredita nele e Yoko. Virgínia percebe que algo está fora do prumo. Aquela declaração cai como um raio nos sonhadores bem no final da década revolucionária. Sem o sonho, a turma entra nos 70 em frangalhos. John fala em prosseguir… Como? Aos pedaços? Dói na alma ver os Beatles se separando litigiosamente, mas permanecendo ligados em ataques sem fim pela imprensa e nas músicas que cantam. Teria sido uma mentira? Como cantaram que só precisamos de amor e não conseguiram vencer seus problemas amorosamente? Cássia dá um suspiro ao dizer: “Tudo por dinheiro… Quem diria? Se até eles sucumbiram ao vil metal… estamos perdidos!” Virginia dá suspiro e meio. Então lhe ocorre que… “-E se alguém fez alguma coisa contra eles? Brilhavam tanto, tanta luz…os seres das trevas deviam odiá-los… Ao apagar a luz dos Beatles o mundo todo entrou nas sombras” “-Virginia, você está viajando? Seres das trevas? De onde tirou isso?” “-Da vontade de achar uma explicação que faça sentido para o acontecido”.

Imagine_ÁlbumEm 71 sai o disco “Imagine”. John surpreende oferecendo esperança na faixa título. Hora de recuperar o sonho perdido imaginando um mundo de amor e paz. Confessa ser um sonhador. E quando todos sonharem juntos… o mundo será um só. Sonho acabado, novo sonho surgindo pela imaginação. Uma letra desconcertante. Um mundo sem religião? Sem posses? Como imaginar isso? Virgínia consegue. “Imagine” torna-se para ela uma oração. Em contraste vem “How do you sleep”. De cair o queixo. Como pede um mundo de paz e destila veneno sobre Paulinho? O pior é que a música é boa. De vez em quando ela ouve sua voz cantando “a pretty face may last”… Que raiva! Considera a canção um equívoco registrado em disco. Ouvindo o LP “Ram” ela percebe que Paul havia dado por onde. A música “Two Many People” é ofensiva e da pior forma: com sutileza. Os ataques indiretos podem ferir mais do que os frontais. Mas John exagera na dose. Ao virar a capa do disco, Virginia vê quando cai de dentro uma foto. John segurando um porco pelas orelhas em gozação à capa do disco de Paul onde ele segura um carneiro pelos chifres. Não é engraçado. É triste. O disco também oferece a belíssima “Jealous Guy”, música composta ainda com os Beatles na Índia, agora com nova letra onde reconhece suas faltas. Para muitos, John teria pensado no antigo parceiro ao dizer “eu não quis te ofender”. Uma coisa é certa: o “divórcio”, como diziam, tinha machucado pra valer. Volta a fantasia dos seres trevosos. Só algo assim para explicar como tanto afeto tinha se transformado em ódio. Ódio? Parecia desespero causado pela dor da separação.

RamMcCartneyalbumcoverVirginia prossegue sua vida com alma dilacerada. Sem Beatles era o mesmo que sem ânimo. Outro jovem inglês, David Bowie, surge no início dos 70 trazendo uma rajada de ar fresco… de pouca duração. O pesadelo punk toma conta. Os meninos separados seguem gravando…Virgínia compra os discos confusa…como se comprasse membros separados do que antes tinha sido um só corpo. A cabeça, o tronco, braços, pernas… Virginia segue amando “apesar de”. Ao dormir costuma sonhar com eles. Por duas vezes acorda assustada. Em sonho lê a manchete de um jornal: “Morre John Lennon assassinado.” Em outro sonho uma amiga dá a notícia: “Mataram John Lennon! Cinco tiros.” Ela se preocupa. Sem saber o que mais fazer, se põe a rezar. John Ono parece a ela, muitas vezes, outra pessoa. Beatle John tinha protestado contra o estabelishment de forma genial. Cantava ferozmente sobre a Revolução, criticava com sarcasmo o fascínio pelas armas de fogo, e nas entrevistas não perdia seu senso de humor para alfinetar. Com Yoko ele entrava dentro de sacos em protesto. Posou nu numa foto feia para a capa do disco “Two Virgins”. Ele e Yoko. Ao se casarem, poucos dias após o casamento de Paul, passam uma semana na cama, rodeado de jornalistas, em nome da paz. Nada a ver com Virgínia. Ela acompanha as notícias. John é eleito o Rei dos Palhaços. Paul processa os companheiros para se ver livre do empresário (das trevas?) Allen Klein. John se afasta de Yoko. Entra em cena a chinesa May Pang. Se entrega à bebida. Vai expulso de uma boate por mau comportamento. Lança dois lindos discos e produz outro para Nilsson. Numa das músicas novas, “I Know (I Know)” parece pedir desculpas a Paul. Deu certo. Ele o visita em Los Angeles! Juntos cantam “Stand By Me”, que lindo! George também o visita. Ringo vai morar com ele ao se separar de Maureen… “-Ah… Eles se encontram! Há luz no fim do túnel”. John compõe “Fame” com David Bowie e “Whatever gets you thru the night” com Elton John. As duas alcançam o primeiro lugar. Volta para Yoko. Veste o pijamão. Nasce Sean. Paul costuma visita-lo no Dakota, o edifício mal assombrado onde vive. John dá um corte exigindo que ele marque horário. Em 78 a amizade refloresce. Chega 1980. Virginia acompanha de coração na mão o drama de Paul preso no Japão. Um amigo liga eufórico. “-Paul is back! Vamos celebrar!” Ter sido preso por porte de maconha faz com que alguns fãs vibrem ao ver que o Beatle Paul não era tão careta assim. Acreditam que comemoram? “Nem tudo está perdido” é o título da noitada. E celebram sem nada saber sobre o que viria no final daquele mesmo ano.

(Fim da primeira parte)

Por Virginia Abreu de Paul(a)

5 Respostas para “So long ago… (Parte I)

  1. Marcus Kaufmann

    Bravo! Bravo! Parabéns!

  2. Pingback: So long ago… (Parte II) | The Beatles College

  3. Só agora eu vi seu comentário, Marcus. Quero agradecer muito. Confesso que tive receio…depois pensei assim: quero resgatar um tempo. E o tema é “The Beatles…in my life”…Então tenho de falar o que senti, contar as angústias que sofremos com a separação, as dores, as esperanças, as emoções boas e não muito boas. Do contrário não seria um resgate. Nâo seria Beatles…na minha vida. Então, me enchi de coragem…Que fique claro que relato os sentimentos de um grupo de pessoas com quem eu convivia e os meus, mas sem impor nada, sem dizer que todos deveriam sentir assim…Sei que cada fã tem seus próprios sentimentos, suas próprias experiencias, seu própria maneira de amar. Por isso me fez muito bem ver que você apreciou e ainda me deu os parabéns…Que lindo. Obrigada e beijos no coração. Viu a segunda parte? Entrou hoje.

  4. Marcus Kaufmann

    Já li, já me emocionei e, definitivamente, essa palavra “Beatles” tem uma energia para além da compreensão que nos une, nos nutre, nos emociona, nos fere, nos entristece, nos anima e nos alimenta! Esse elo de proximidade que você sente, todos nós sentimos também em diferentes graus e com diferentes sensações. Você é a expressão máxima disso, Virgínia, uma fã de “primeira geração”!! Sou fã de segunda geração e talhando os meus para serem de terceira geração. Meu molequinho, Vitor, de 6 anos, ama Bésame Mucho da sessão de 06/06/1962 em Abbey Road do Anthology 1!! E é viciado em “Save Us” do Paul! Que maravilha! Para você, Virgínia, que veio a Brasília e viu o Paul, como eu e como tantos, de várias e várias gerações, bravo, bravíssimo!!!!!!

  5. Deixo aqui meu profundo agradecimento a Markus…Eu custo a ver quando alguém faz um comentário. Culpa minha. Esqueço de marcar para que me chegue avisos por e-mail. Markus, não sei se você verá meu agradecimento. E da minha emoção por esse contato com alguém que sente essa energia Beatle. Essa magia, essa coisa milagrosa. Sim, aconteceu com muitos de nós. Captamos alguma coisa. É muito lindo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s