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“Pois eu acho que os Beatles são fantásticos!”

Estranho, esquisito, inquieto… é dessa maneira que as pessoas me veem. Cada dia, todos os dias, eu posso vê-las rindo de mim. Não sei dizer se sou realmente assim, porque até hoje não sei quem eu sou.

Meus pais nunca me falaram isso, mas sinto que eles sentem um desgosto, como se eu não fosse bom em simplesmente nada. Às vezes não sou mesmo. Por isso trabalho na NEMS. É o meu refúgio para as coisas que me repudiam. Pelo menos o meu lugar eu encontrei.

Aqui eu fico decorando minha loja, catalogando os tantos álbuns e singles, fazendo novas encomendas… se deixar fico a madrugada inteira.
O melhor de tudo são os clientes. Adoro conversar com eles. Conhecer seus gostos, o que ouvem, o que gostariam de ouvir… não faço isso apenas pela loja, é uma maneira de conviver com as pessoas, coisa que nunca fui muito bom em fazer.

600817_03Recentemente me veio a oportunidade de escrever para a Mersey Beat sobre os lançamentos de discos. Eu não curto muito música pop, mas tem sido uma experiência muito bacana, pois está atraindo mais jovens para a loja, pois a revista é sobre as bandas que vivem tocando nos clubes daqui de Liverpool.

-O senhor tem o disco My Bonnie?
-Não tenho garoto, quer que eu encomende? De que banda é?
-Quero sim, pode reservar. O nome da banda é The Beatles.
-The Beatles? E já ouvi falar desta banda. Ela vive aparecendo na Mersey.
-Eles são muito bons, senhor.

O mais engraçado é que passaram-se mais algumas horas e outros jovens me encomendaram este mesmo disco. O disco tinha suas razões de ser tão pedido.
Apesar da gravação ser de qualidade inferior, os vocais eram todos muito bem encaixados e afinados, a maneira como o ritmo alternava era muito atrativa e cativante. Os instrumentos pareciam ser muito bem tocados, tinham uma energia diferente.

Quando ela começava, automaticamente fechávamos os olhos e seguíamos o ritmo com a cabeça. E quando o ritmo se alterava nós éramos transportados para os clubes, era possível sentir o cheiro de mofo misturado aos gritos e danças adolescentes. Nunca nenhuma música me causou isso. Esses caras são realmente muito bons.

Depois disso, eu comecei a ler mais atentamente as reportagens sobre eles, e fiquei com vontade de vê-los tocando ao vivo. Me ajeitei de ir ao Cavern. A atmosfera era fria e sombria. O som que os Beatles faziam enchiam os meus ouvidos. Não era a melhor performance que já tinha visto em minha vida. Mas eles eram esplêndidos, de uma maneira inexplicável. E o que eles passavam em sua música era visível na personalidade deles. Eles tocavam o que sentiam.

600510_05Quando me toquei já estava sempre indo aos shows deles. Eu parecia viciado naquilo que eles produziam, naquilo que representavam. Tinha algo ali de promissor. Eles só precisavam da pessoa certa. E eu seria ela. Seria o empresário deles.

Eu disse para meus amigos, meus pais, advogados e empresários essa minha ideia. Mas eles pareciam achar um absurdo, uma perda de tempo. Eu dizia que eles fariam mais sucesso que Elvis, que eles eram incríveis no palco. Mas isso não os convencia… É tão difícil assim enxergar o talento?

Marquei com os rapazes uma reunião. Enquanto eles iam me contando sobre eles, eu ficava observando o quanto eram jovens, animados e surpresos. Parecia que nada pararia eles, a sensação de liberdade era evidente. Não tinham medo de se arriscarem, e essa era a real marca. Eles iam longe, bem longe… e eu pressentia isso.

Passados alguns dias, eles vieram com a resposta: eles me aceitariam. Agora teria que fazer muitas reformas na banda. Não seria fácil, eles eram muito inflexíveis. Mas, com minha diplomacia, eu consegui convencê-los aos poucos, de não comerem no palco, não chegarem atrasados, e agradecerem no fim de cada música.

Eles estavam começando a melhorar suas performances e seus modos. O que eu precisava era arrumar um contrato de gravação para que eles começassem a gravar discos, isso faria com eles ficassem mais conhecidos, servindo como um veículo de comunicação. Além disso, os rapazes precisavam de um incentivo.

Nova Imagem2Consegui algumas audições, mas infelizmente, as gravadoras me disseram que bandas de rock já saíram de moda e não enxergavam o potencial deles. Eu dizia para os rapazes não desanimarem, que uma hora conseguiríamos, mas eles pareciam estar desmotivados. Ambos fracassaram muito durante a carreira que tiveram.

O pior é que eles estavam esperando de mim uma resposta, algo que mostrasse para eles que valeu a pena me colocarem como empresário. Conversei com várias gravadoras e a que restou foi a EMI. O produtor, depois de conversar bastante comigo (tive que ser bastante insistente), marcou uma audição com os rapazes e já me mandou um contrato antes de conhecê-los!

Finalmente uma boa notícia para contar aos rapazes! Corri para o telégrafo e lá mesmo os avisei desta notícia. Eles finalmente se empolgariam! Eles sabiam que talvez aquela seria a última chance deles.

Chegamos em Londres. Mais precisamente em Abbey Road. Estavam pálidos, trêmulos de nervoso. Parecia que eles queriam sair correndo dali. Eu tentava encorajá-los, na medida do possível, pois a pressão recaia também sobre mim.

Entramos. Ouvíamos o eco de nossos passos e o cheiro de madeira. Eram muitos quartos, cheios de equipamentos, o que causava ainda mais estranhamento para eles.

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No caminho do estúdio 3, John fazia umas piadinhas e Paul as respondia na tentativa de esconderem o nervosismo. Mas nada se compara quando eles viram o estúdio. Era como se tivessem encontrado o paraíso. Só se via olhos arregalados de surpresa. Eles iam andando em círculos, observando cada detalhe da parede. Foram colocando a mão nos microfones, nas cadeiras, em alguns instrumentos, na mesa de som, como se quisessem abraçar aquilo tudo e nunca mais soltar.

Eu pressentia, e parece que eles também, que aquele lugar seria muito utilizado por eles. E que ali deixariam sua marca, e muito mais do que isso. Bastava apenas eles continuarem tocando as pessoas, coisa que eles já faziam muito antes de pisarem neste estúdio, e que já estavam bastante acostumados…

 Por Mariana Alves

6 Respostas para ““Pois eu acho que os Beatles são fantásticos!”

  1. Mariana como sempre nos deliciando!🙂

  2. Mais uma ótima história, Mariana! Você chegou a pesquisar a história de Brian para escrevê-la, ou já a conhecia anteriormente? Como sempre, adorei. Esse era o Brian Epstein – o homem que ensinou os Beatles a não beber, comer e fumar no palco, a agradecer ao público após cada canção e o que ainda me surpreende: usar ternos. Para mim, empresário algum poderia convencer os Beatles, “Um dos grupos mais indisciplinados que eu já tinha visto”, nas palavras de Bob Wooler, a fazerem algo como aquilo naquela época além dele. Imagine, usar ternos! Não foi fácil convencê-los – principalmente John – mas ele conseguiu. Um homem confuso, ambicioso, extremamente sensível e de bom coração. Certamente – e, novamente, em minha opinião – o quinto Bealte. Como o próprio Paul disse. Se houve um quinto Beatle, ele foi Brian. E ele não estava errado ao dizer o que disse ao (se não me engano, e por favor, me corrija se eu estiver errada) Alistair Taylor. “Pois eu acho que os Beatles são fantásticos!”. Sim, Brian, nós também achamos.

    Abraços!

    • Oi Alice!!! Muito obrigada novamente!
      Lógico que eu não me recordo de tudo (até porque, o livro de Bob Spitz é muito rico em detalhes), então dei uma relida para eu me relembrar de alguns detalhes.
      Você provavelmente leu o livro do Bob Spitz (você sentiu o que senti quando ele fala do encontro entre John e Paul?), realmente foi Alistair Taylor quem disse a frase!
      Agora, mudando de assunto (eu tinha comentado naquela matéria da pré-venda de SP, depois você dá uma olhada), como vai a expectativa do show? Com as playlists dos que já tiveram, já temos uma noção de como será o seu! Continuo torcendo por você, precisando (como já disse) é só falar!
      Abraços!

      • Alice Vieira

        Oi, Mariana! Sim, já li aquele livro, e que livro. Aja, detalhes, parece que o cara estava lá, vendo tudo. A próxima que eu vou comprar é Can’t Buy Me Love, você provavelmente já ouviu falar. E estou lendo um chamado You Never Give Me Your Money – The Battle For The Soul Of The Beatles que aqui no Brasil fica “A Batalha Pela Alma Dos Beatles”, do Peter Doggett, já ouviu falar? SIM, eu senti!
        Pois é, adorei essa parte do livro, mas pensei estar me confundindo. Às vezes confundo nomes, então achei bem provável que eu provavelmente estava com Alistair na cabeça e confundindo.
        Estou prestes é a ter um colapso nervoso. Acredita que a minha mãe AINDA não foi retirar os ingressos? Vai só sexta-feira, porque inventou que não queria me levar junto! Oh, senhor… E fico contando os dias, acordo de manhã e penso “Faltam X dias para eu ver o Paul” e isso mexe com a gente. E estou com medo do meu pai se atrasar (é bem provável) e eu chegar lá no estádio só lá para umas cinco da tarde e encontrar uma fila do tamanho do mundo. Mas estou tentando me acalmar com o mesmo pensamento dos ingressos. Don’t you know it’s gonna be? Alright. E novamente, muito obrigada por toda a ajuda que você me deu até agora! Pode deixar que contarei tudo!
        Abraços!

  3. The Beatles foram mais que uma banda.Foram uma inspiração para muitos de nós,com suas belas canções fazem a gente viajar pelo universo esplendido deles,sempre falando da paz,do amor,da amizade.Não importa quanto tempo passe,Os Beatles são únicos e eternos.

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