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“Ah, como eu sinto falta de ser um beatle!”

Mais um destes programas que tenho que ir. Isso me estressa. Em todas a entrevistas que vou, não há uma que não me perguntem sobre os Beatles. E geralmente são as mesmas perguntas. Será que eles não percebem?

Imagem 1A pior pergunta é: “os Beatles irão se juntar novamente?”. Eu já não aguento mais esta pergunta. Eu, John, Paul e Ringo já cansamos de falar que não iremos formar os Beatles novamente. Até quando iremos ter que aguentar esta pergunta? Já não basta o que eles fizeram?

E aqui estou eu, chegando aos estúdios de gravação para mais uma entrevista. Uma entrevista, que como as outras, já tenho as respostas decoradas antes de saber quais serão as perguntas. O que eu estou estranhando é que até agora não apareceu nenhum entrevistador, só me encaminharam para uma sala aonde tem uma câmera e uma televisão.

Deixaram até minha esposa ficar aqui comigo, junto com alguns engenheiros de som! E ainda por cima, com todos nós sentados em um sofá! De repente, um dos senhores de terno liga a TV. O que? Eu conheço isso! Eu estava tocando a guitarra nela, esse início se parece com…

Ah, This Boy! Me lembro direitinho de nós lá estúdio, com Martin tentando nos ajudar com os vocais. Eram vocais muito difíceis, mas desde o primeiro take nós já tínhamos conseguido fazer os vocais perfeitamente.

Nossa. Bons tempos. Eu sinto falta da época em que éramos inocentes crianças brincando com seus brinquedos. Tínhamos o mundo inteiro para conquistar, nada nos impediria. Ficávamos madrugadas acertando as músicas nos mínimos detalhes.

Olha ali eu novinho! É muito estranho, parece que não era eu ali. Olha o sorriso de John e a cara de Paul! O mundo era muito diferente. A minha visão de mundo era muito diferente.

Imagem 2Era uma boa canção de John. Uma balada romântica, mas estridente. Coisa que John muito bem fazia. Ele odiava colocar os óculos ao vivo. Ele não enxergava nada no fim das contas, mas nunca os colocava. Acho que se nós usássemos óculos também, ele colocaria. Nós fazíamos tudo juntos. Isso que era o bom desta época. Íamos às apresentações juntos, nos hotéis, nas entrevistas, nas festas, nas casas uns dos outros…

Foi assim durante um bom tempo. Até que a magia entre nós simplesmente sumiu. Deixamos de importar com nossa amizade. Era cada um por si. Hoje, nós sempre nos referimos aos Beatles como se fosse uma parte esquecida e traumática de nossa história.

Mas quando eu vejo a gente cantando, a minha vontade é voltar no tempo e fazer tudo aquilo de novo. Eu realmente amo esses caras, mais do que eu mesmo imagino. A gente brigava porque a gente estava vendo tudo sumir e queríamos poder nos abraçar e dizer: “isso vai passar!”.

Imagem 3Mas a gente não conseguia dizer isso. Não éramos mais meninos, já éramos homens. E as responsabilidades e toda aquela pressão estava chegando antes de nossa amizade. Isso foi nos destruindo, até acabar.

Os homens de terno percebem que estou mergulhado em pensamentos, e me dizem que resolverão comigo mais tarde detalhes da entrevista. E eu saio de lá consternado. Chego em casa e olho para o espelho. Pelos meus olhos eu enxerguei Paul no ônibus comigo, me chamando para conhecer a banda que ele acabara de entrar. O líder deste novo grupo era amedrontador, e Paul parecia já conhecê-lo a anos. Mas, na verdade, eles se conheceram a pouco tempo.

Me lembro de mim tomando coragem para ir aonde Paul tanto insistia. Eu estava morrendo de medo do olhar de John, me causava arrepios. Mas ele me aceitou depois que me viu tocar. Quando ele me disse “você pode entrar para o grupo” eu vi em seu olhar um John mais amoroso e compreensivo, do que amedrontador.

Ainda olhando para o espelho, me lembrei de nós em Hamburgo, numa época em que sonhos não faltavam. Conheci Ringo e nos tornamos amigos dele. Era um cara muito carismático e sincero. Vi Brian tentando nos ajudar, e conseguindo uma audição na EMI. Vi nós ligando desesperadamente para o nosso Ring, implorando que ele fosse parte da banda.

Fechei os olhos e me vi tocando This Boy. Abri meus olhos, mergulhado em lágrimas, e vi nós cantando Because, um de frente para o outro. Enxuguei minhas lágrimas e fui pensando nas tantas trocas de ofensas que tivemos.

Nesse exato momento, o sol bateu no meu espelho e eu me lembrei de quando fizemos uma guerra de travesseiros em comemoração à nossa música, que sol radiante que estava naquele dia!

Imagem 4

Depois continuei olhando fixamente para mim mesmo, e me vi olhando para o espelho quando havia um mundo inteiro a ser descoberto por nós. Planejávamos o que faríamos, para onde iríamos… Queríamos continuar mudando o mundo. Não olho mais para o espelho, e sim para mim. Vendo o que eu era, estou vendo o que sou.

Ninguém vai tirar isso tudo o que eu vivi de mim, nem se tentarem. Nós vivemos aqueles tempos juntos, e o que nós sabemos um do outro, é mais do que nós sabemos de nós mesmos! Os Beatles não irão voltar, disso eu tenho certeza. Mas agora eu percebi, que eu realmente gostava e muito de estar ali com eles, e eu jamais vou me esquecer disso.

OBS: Essa fanfic é em referência a este vídeo:

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Por Mariana Alves

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Este artigo é uma Fanfic. Clique aqui e leia outros artigos desta categoria.

9 Respostas para ““Ah, como eu sinto falta de ser um beatle!”

  1. Mariana de novo nos presenteando com uma sensível e amorosa visão dos Beatles, desta vez de George Harrison. Dá vontade mesmo de entrar dentro deles, saber o que realmente sentiam, entender como foi possível pessoas de tal afinaidade, ao ponto de criar maravilhas no meio da tempestade, e mesmo assim optarem pelo fim da banda. Esse passeio por dentro da alma de George me fez bem em plena manhã. Agradeço a Mariana. E peço a ela que leia meu texto postado ontem…Pode ser que goste! Informo que não é fan fix. Escrevi sobre fatos verídicos mesmo que usando de licença poética. Quanto ao video, é por demais emocionante. E foi a primeira vez que percebi como os movimentos de cabeça e a maneira de rir de George lembram Beto Guedes.

    • Muito obrigada mais uma vez Virgínia! Eu adorei o seu texto, você conseguiu fazer um paralelo entre sua vida e a dos Beatles de uma maneira que é inimaginável essas duas histórias estarem separadas! Me emocionei muito. Esse vídeo mexe muito comigo também, causa em nós uma mistura de sentimentos indescritíveis… abraços!

  2. Eu amo demais todos os Beatles, mas há algo no George que me intriga. Dos quatro Fab Four, ele é aquele que eu sinto mais ternura, embora eu seja um fã do John, é o George que mais me comove. Por isso ouço “You Really Got a Hold on Me” repetidas vezes todos os dias; John & George!

    Eu tenho 29 anos.

    Obrigado, Mariana, mais uma vez!

    Tudo o que você descreveu perfeitamente acima foi/é real!

    • Obrigada a você! George é realmente intrigante, essa sua fama de beatle tímido não está com nada. Até mesmo a sua maneira de cantar é um reflexo de sua personalidade. Eu me encanto muito também dele cantando Because, é perceptível o quanto eles sentiam a música!
      Abraços!

    • Oh, coisa linda :’) George é TÃO amável❤ Obrigada por mais uma ótima fanfic, Mariana! Como não amar George Harrison? Eu sou fã de John de corpo e alma, mas não posso responder à questão "Beatle favorito". Nunca poderei. Porque John e George me conquistam de uma forma que nem mesmo eu entendo. A ternura que sinto pelos dois é sem igual. É um carinho especial que eu não consigo sentir por Paul ou Rindo, apenas por eles dois. Amo tanto os quatro, mas é algo que só consigo sentir pelos dois. A fanfic ficou incrível novamente – a sensação de realidade é quase inacreditável! Fiquei emocionada com o texto tamanha a sua beleza. Espero sinceramente poder muitas outras das suas fanfics!

      Abraços!

      • Alice Vieira

        Me desculpe pelos erros, estou pelo celular🙂

      • George era aquele que trazia a todos uma tranquilidade e um aconchego. Consigo imaginar direitinho ele aconselhando seus amigos para os tantos problemas que aconteciam. John e George são mais parecidos que imaginamos… fico muito feliz que tenha gostado! Muito obrigada!
        Abraços!

  3. Mariana, muito obrigada. Você fez transparecer a essência de George, o homem que ele era. Mesmo que seja apenas uma fanfiction, seu texto me fez imaginar o próprio George dizendo cada uma dessas palavras, você me deu um verdadeiro presente com esse texto. “Não olho mais para o espelho, e sim para mim. Vendo o que eu era, estou vendo o que sou.”
    Sim, você incorporou George, é como se fosse uma psicografia do espírito dele falando contigo, muito obrigada, de verdade. Pelo texto e pelo vídeo, estou apaixonada pela risada de George.
    Abraço!

    • Muito obrigada! A história de George emociona todos nós e esse vídeo mostra pra gente direitinho o amor que ele guardava com ele dos Beatles !🙂
      Abraços

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