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“Você está tocando no telhado de novo e isso não é bom!”

Eu havia desistido. Os Beatles perderam aquilo que era o mais importante: o amor entre eles. Eu aguentei as gravações do que foi chamado de Álbum Branco só para ver se restava apenas um respeito mútuo. E me decepcionei. Fui embora para não voltar mais. Me sentia triste. Não por eu ter me distanciado deles, mas por eles se distanciarem.

foto151Depois de alguns meses distante, sabendo notícias deles apenas pela mídia, fui passar pelos estúdios Twickenham e resolvi dar uma espiadinha. Eles estavam em uma roda de conversa, tentando decidir como eles terminariam o documentário Get Back.

A conversa parecia ter tom de briga. Paul apaziguava. Eram diálogos curtos, de pessoas que não queriam estar ali mas precisavam estar. Eu cheguei e me deparei com Paul pedindo que fosse decidido o local mais tarde, mas aparentemente, os outros três queriam resolver aquele problema logo.

E a solução acaba chegando graças a George, que de maneira muito espontânea e desinteressada, dá uma grande ideia, foi basicamente assim:

George: faço qualquer coisa… se tivermos que subir no telhado, eu vou. Mas quero dizer… não quero ir…
Ringo: Eu gostaria
John: Eu gostaria de subir no telhado. Diverte as pessoas.
Paul: tudo bem, mas não vamos discutir isso.
John: quero gravá-las como faixas e fazer 14 números.

The+Beatles+Rooftop+ConcertE assim foi decidido e assim foi feito. Depois deste bate-papo deles, eu tive que aparecer. Eles me deram calorosas saudações e me perguntaram o que achei da ideia. Eu achei ela muito original e prática. Não seria necessário a compra de ingressos, e ao mesmo tempo, as pessoas poderiam vê-los ao vivo, coisa que não acontecia há muito tempo.

Me chamaram para ir. Óbvio que eu aceitei, quem recusaria uma proposta dessas? E no dia 29 de janeiro estávamos lá, subindo as escadas da Saville. George por um instante fica parado e parece se perguntar se era para estar ali, com todo aquele perceptível clima pesado. John parece entender o seu questionamento interior e diz “sem problema, vamos fazer!”.

Chegaram lá em cima e por um instante olharam para todas aquelas construções à sua frente. O vento estava gelado, o que causava ainda mais desânimo. Mas, já estavam ali, o que tinham que fazer era cantar. Confesso que eu fiquei apreensiva. Eu realmente tive medo deles brigarem ali mesmo, não se importando se alguém os visse. Mas não era hora de pensar nisso, era hora de começarem.

images (1)Eles se ajeitam. John faz a contagem. E começa com Get Back, uma nova música deles. Assim que Paul começa a cantar, me surpreendi com as pessoas que estavam lá embaixo e que tentavam enxergar o que estava acontecendo, e várias outras que observavam pelas janelas. Mas outra coisa me surpreendeu mais.

Após Get Back, John começa com um canto estridente, quase como uma súplica, um pedido de socorro. A música se chamava Don’t let me down. Dispensando as técnicas, algo me deixou muito surpresa, além da multidão que foi se aglomerando nas ruas.

John erra a letra de uma maneira muito clara (e enrola de uma maneira muito clara também). Este erro provocou risadas nos outros três, o que quebrou aquele clima pesado. Depois do erro de John, as coisas mudaram. E que troca de olhares. Inexplicável. Ninguém dizia que eles estavam brigando tanto. E Paul olhava para John, que olhava para George, que olhava para Ringo. E muitos sorrisos começaram a aparecer.

A próxima musica, I’ve got a feeling, salientou ainda mais a troca de sorrisos e olhares. E pulos, e gritos, e cabelos esvoaçantes. Estavam tocando com muito mais vigor, com vocais improvisados, com muito mais amor! Também não posso desmerecer a próxima, One after 909, que levou a uma nostalgia e a uns vocais excelentes, até conversar enquanto cantavam eles conversaram!

Do jeito que estava, sairiam mais que 14 músicas. O problema é que nem tudo é previsto, e alguns do que estavam ouvindo, se sentiram incomodados. O que obrigou a polícia a reagir e impedir. Mal avisou que a polícia estava chegando. E sabe o que os Beatles fizeram? O óbvio! Continuaram cantando, que terminasse o documentário com eles presos!

imagesTermina One After 909 e começam com Dig a pony. A troca de olhares continua. E agora vem também a troca de riffs de guitarras entre George e John. É preciso frisar o quanto eles sempre foram bons ao vivo, independente da dificuldade da técnica. Aquilo era realmente incrível.

Só que os Beatles não pararam de tocar conforme o exigido, e os policiais foram obrigados irem até lá em cima, aonde estavam tocando. Termina Dig a pony e os Beatles olham discretamente para os policiais, e meio que indicam que vão parar por ali mesmo, mas… John faz a contagem e começam com Get Back novamente!

Os policiais olharam com uma cara, eu achei que eles iriam jogar os instrumentos no chão para fazer pará-los. Na verdade, era isso que os Beatles queriam. Mal desliga a caixa de som de George e tenta conversar com ele, e George torna a ligar. Depois desliga a de John. E George liga para ele.

P0114Era algo bem irônico de se ver. Mal sendo obrigado a desligar as caixas de som por conta dos policiais, e os rapazes cantando “volte para o lugar de onde você veio”. Não consegui ouvir o que Mal dizia aos policiais, mas parecia que ele apenas prometia que ao terminarem Get Back iriam embora.

Este ‘consolo’ de Mal não estava ajudando. Os policiais estavam ainda mais estressados e pareciam que iriam voar em cima de Mal e de todos nós que estávamos ali. Mas, por incrível que possa parecer, Mal os ‘chama para conversar lá embaixo’ e os policiais descem. Os rapazes parecem vibrar.
E assim acaba a música. Paul agradece Mal, John faz suas ‘indiretas’ piadinhas, eles guardam os instrumentos e vamos descendo as escadas. A energia de subir as escadas era outra descendo. Eles estavam radiantes, felizes, decepcionados pelo fato da polícia não ter reagido conforme eles queriam.

THE BEATLES APPLE ROOFTOP CONCERT - 1969 LONDON 008_0001Eu dei vários parabéns a todos eles, e no meu caminho de casa, não pude deixar de pensar que aquelas brigas tiveram o seu fim. E que, quem sabe eles voltassem a fazer shows? Eles estavam com uma clara saudade de tocar nos palcos, e aquilo reacendeu a chama.

No dia da roda de conversa, e até na hora de subir as escadas, era notável o desinteresse, a vontade de resolver aquele ‘negócio’ logo. Mas depois da apresentação, acho que só faltavam descer as escadas, ir direto compor algumas músicas e começar um novo projeto! Eles realmente saíram dali como aqueles brincalhões de sempre. E mal sabia eu o que estava por vir…

Por Mariana Alves

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10 Respostas para ““Você está tocando no telhado de novo e isso não é bom!”

  1. Já sei desta história de outro modo. Me contou um transeunte daquela época que, foi um dos primeiros a subir para ver o show ao vivo, quando o acesso ainda estava liberado. Chegando lá em cima, soube que eles não aguentaram o cheiro de erva queimada no estudio e resolveram subir porque o John falou que precisa respirar ar puro. E também porque no estudio, tinha uma camara flutuante, que ficava filmando de um lado para o outro todos os lances que eles faziam no estudio, tirando a atenção de cada um nas músicas. A polícia resolveu acabar com o barato porque o local não oferecia muita segurança para um bando de gente. Chegaram até a sugerir que as músicas continuassem na calçada !!!

    • Esta versão eu não conhecia! Imagina só se eles fossem cantar na calçada! Já deu uma confusão danada lá no alto…
      Abraços!

  2. Mariana, adorei! E embora seja fiction – apenas pela sua inexplicável ausência ali – é totalmente real no que de fato aconteceu. Basta ver o show. Que clima maravilhoso. Por coisas assim é que precisam ser lembrados. A originalidade, as ideias que brotavam neles sempre que estavam os quatro juntos. Deles saía sempre o melhor, o inesperado. E então, faziam história. Nem sei quanto inventaram cantar em cima de telhados depois disso. A propósito eu achei um blog mostrando áudios e videos do Let it Be que não fizeram parte do documentário. Só preciosidades que mostram que nem tudo era briga. Há situações hilárias. Diversas gravações de “Two of Us” todas cheias de trocas de ideias entre John e Paul com todo bom humor do mundo. Eles cantam a música com diversos sotaques diferentes. De rolar de rir. E John chama Paul de “darling”…É tão lindo! Nem adianta Paul dizer que fez a música para Linda porque deixou de ser. O entrosamento deles nos diversos takes é impressionante. Two of Them. E dando boa noite? Good night Paul, Good Night John…Nessa eu chorei pois é visível o calor da amizade,,,in spite of all the danger…:) Muitas conversas são quase impossíveis de entender. Mas fizeram a bondade de escrever o que dizem para nós. Tudo lindo. George oferecendo sanduiches para Paul…gente, é tão terno.. ” Paul do you want some sandwiches?’ So cute, como bem disseram. Ficou mais forte para mim a sensação que algo misterioso acontecia e que causou tanto dissabor…Não há como saber ao certo. Energias trevosas, sei lá. Viviam o que os espiritualistas chamam de ” Noite Escura da Alma”. E é bem nesse tempo que Mother Mary surge em sonho lembrando que quando a noite está nublada ainda existe uma luz que brilha…Pois é essa luz que vemos nas ‘Let it be sections” e que brilhava intensamente ali no telhado da Apple em Savile Row e que Mariana descreve tão bem nessa ficção “real”. E é por isso que classifiquei como inexplicável a ausencia física de Mariana lá em cima. Quem sente tanto os Beatles merece estar sempre com eles. Espiritualmente, ela lá esteve. Mariana, obrigada.

    • Sempre me emocionando com seus comentários, Virgínia! Muito obrigada de verdade. Eu já vi algumas versões muito engraçadas dos Beatles que ocorreram durante as sessões de Let it be. Tem uma delas interpretando Help! com umas vozes engraçadas, eu fico rindo sozinha essa de Two of us eu não conhecia, vou ver se eu encontro!
      Abraços!

  3. Ai Mariana, adorei! Mais um lindo texto seu! Eu amo o Rooftop Concert, assisti o Let It Be todinho, sem legendas, mesmo que eu só tenha inglês intermediário, e o final fez cada sacrífico para entender o inglês valer à pena. O Lei It Be é um poço de emoções – poucos sorrisos, muitas expressões tediosas e irritadas, mas apesar de todas aquelas brigas ainda havia uma harmonia inegável na banda. A amizade e a ternura ainda estavam lá, e o Rooftop foi a prova disso. Tantos sorrisos trocados, e, ah, a troca de olhares. E que troca, como você mesmo disse! E mesmo brigando, eram tão geniais. Estou ficando apaixonada pelas suas fanfics de momentos reais. Lê-las – principalmente essa – dá uma saudade… De um tempo que eu nem mesmo vivi. Ao menos, não fisicamente, porque em meu coração, é como se eu estivesse lá. Visto tudo. Desde o encontro entre John e Paul em Woolton até o pós-fim. Apesar de nunca ter acontecido um encontro entre todos os três, há histórias tão lindas. Há uma foto em que John, aparentemente bêbado, está se apoiando em George. É de 1973, eu acho. Outra do mesmo ano, com Paul no piano de John. Paul fazendo uma visita ao John em 1974, e John chamando a ele e a Ringo para um almoço no dia seguinte. Ringo na casa de George, apresentando a bateria ao Dhani. Paul se debulhando em lágrimas um dia inteiro segurando a mão de George na última vez que se viram, e George perguntando a Ringo se ele queria que ele o acompanhasse a Boston. Todo mundo está cansado de saber disso, mas ainda assim, sempre vale a pena relembrar🙂 Obrigada por mais uma bela fanfic!

    Abraços.

    • Obrigada a você Alice! A parte mais emocionante na minha opinião, é quando John e Paul cantam Two of us no mesmo microfone. É inexplicável. Sem palavras. Os encontros pós-beatles são muito emocionantes mesmo, é notável o quanto eles eram ligados. Você já deve ter lido a entrevista de John à Playboy, em que ele diz (em meados de 80, pouco antes de morrer): “Mas não se enganem. Eu amo estes caras. Os Beatles acabaram, mas Paul, John, George e Ringo continuam”. Tem também uma entrevista ao Larry King Live de 2007, em que estão juntos Paul, Ringo, Olivia e Yoko (você acha a transcrição dela, não me lembro onde) em que Paul se emociona com uma fala de Ringo e pergunta “eu posso encostar em você?”.
      Não há nada mais a dizer, mas tudo bem.
      Abraços!

  4. Viajei na narrativa. Adorei! Muito bem escrita. E dá pra perceber que foi de fato escrito por um beatlemaníaco. Dá pra sentir o amor nas palavras.🙂

  5. Sou novo aqui, embora leia o conteúdo do site todos os dias. Sou fã de Beatles, amo cada uma das músicas, mas principalmente, cada um deles.
    Me emociona muito.

    A parte em que é descrita onde o George oferece sanduíche ao Paul me fez chorar uma lágrima bonita.

    • Apesar de ter sido um período muito turbulento na vida dos Beatles, ele também marca a saudade que eles tinham de si próprios quando eram mais novos. Foi realmente uma época emocionante e cheia de surpresas!
      Abraços!

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