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“We hope you will enjoy the show…” – O processo criativo dos Beatles

Quarta-feira, às oito da manhã, quando o dia começa… toca o meu alarme. Fiquei um tempo tentando saber o porquê dele ter tocado e me recordei de que era hora que meu programa favorito começava. E hoje era o último episódio. Desci as escadas e fui à sala assistir. Era hora do comercial e encontrei com John na cozinha. Me estranhei.

Esses dias, com este novo trabalho dos Beatles, ele tem chegado bem tarde em casa, quase às três horas da manhã, e costuma levantar da cama apenas umas duas da tarde para voltar aos estúdios lá pelas sete da noite. E acabo de encontrar com John às oito da manhã na cozinha? Alguma coisa está errada.

imagem 1Dei um bom dia a ele. Mas ele parecia estar desligado, e nem me respondeu. Ele só ficava andando em círculos, dizendo e repetindo para si mesmo em voz alta: “o que eu coloco em 24 compassos?”. Aí eu entendi sua neura. Era o novo trabalho deles, mais uma obra prima de John. A música estava indo bem, apesar de estar demorando para concluí-la.

O único problema desta nova música, é que ficaram 24 compassos vazios no meio dela, e eles não faziam ideia de como preenchê-los. Como eu não sabia o que dizer, só pedi a John que fosse descansar, que eu tinha certeza que ele pensaria em algo mais tarde.

De repente John arregala os olhos e pára. Eu olhei assustada e perguntei “o que foi John? Você está bem? O que está acontecendo?” e ele continuava imóvel. Imaginei que ele estivesse tendo alucinações ou algo do tipo e comecei a balançá-lo para ver se reagia. Nada. Tentei falar com ele. Ele virou pra mim e gritou: cala a boca!

Me calei. Pelo menos ele sabe aonde está, pensei. E fui ver para onde John tanto olhava. Era para a televisão, que ainda estava nos comerciais. Sinceramente, eu não entendi. Ele ficou encantado com a propaganda do cereal da Kellogg’s. E só parou de olhar depois que terminou o comercial. Quando acabou ele gritou para mim: “rápido, um papel e um gravador, agora!”.

imagem 2Nem parei para pensar o porquê dele querer seus materiais naquele momento, fui correndo buscá-los antes que ele estressasse comigo. Entreguei a ele. Ele pegou e saiu correndo para o seu quarto. Será que ele teve uma ideia para os 24 compassos? E a propaganda com isso?

De tardezinha, ele sai do seu quarto com outra disposição. Desceu as escadas assobiando, e me deu um animado bom dia. Eu tinha que perguntar para ele o que aconteceu de manhã cedo. “Você descobriu o que colocar nos 24 compassos John?” ele abriu um sorriso e me disse que não. O que ele teve foi uma ideia para uma nova música a partir da propaganda de cereais! Eu achei estranho, mas este era John. Ele simplesmente ignorou o que fazer nos 24 compassos, e resolveu “relaxar a cabeça” fazendo outra música a partir de uma propaganda de cereais. John nessa época assim estava, ele compunha com as coisas que estavam ocorrendo em sua vida, e as modificavam de uma maneira sutil.

Só de olhar para mim ele notou que eu estava curiosa para saber o resultado que deu. Assim, ele me perguntou se eu gostaria de ir com ele aos estúdios hoje à noite. É óbvio que aceitei. O combinado era chegarmos aos estúdios às sete horas. Porém, como era de costume, uma hora antes fomos à casa de Paul. Eles estavam muito empolgados com “a música que faltava 24 compassos”, nomeada agora de A day in the life. Eles tinham acrescentado nela uma composição de Paul, o baixo e a bateria. E pelo que falaram, a música realmente seria revolucionária.

Não vou dizer que fiquei com ciúmes, mas a amizade deles é realmente invejável. Um admira o outro, um entende a língua do outro, a maneira como eles se olham é especial. Quando John começou a contar para ele do comercial, Paul vibrou junto com ele e bolou uma continuação da melodia. Ele não achou aquela ideia estranha. Achou ela original. Por um momento, eles pararam de falar de música e falaram com a música.

imagem 4Depois que eles conversaram bastante, me pediram desculpas por terem me “esquecido” ali. Eu não liguei, é claro, tinha acabado de ver uma cena e tanto. Avisei a eles que já eram oito horas. Em um instante pegaram seus gravadores e suas guitarras e fomos ao estúdio. Chegamos lá e George e Ringo já estavam esperando. Desta vez eles não foram à casa de Paul. Atrasaram e foram direto para a EMI.

A discussão principal era sobre “A day in the life”. Eu acho que eles já estavam tão cansados de pensar nela, que John sugeriu que mudassem de música. Os três adoraram a ideia. A próxima música foi obviamente, a inspirada no comercial, agora nomeada de Good morning Good morning.

John começou a cantar. Sua voz estava diferente, seca e vibrante. Os Beatles se empolgaram com a melodia e imediatamente quiseram gravar. Ringo viu que aquela música precisava de um ritmo que se encaixasse à sua melodia e a letra. E foi o que ele fez. Ele atacava a bateria com uma empolgação, com uma sincronia, que deu uma nova cara à música. Também não posso deixar de ressaltar o riff de guitarra de George e o baixo de Paul que ficaram bem característicos.

Porém, já eram duas e quinze da manhã e estávamos exaustos. John estava indeciso, sabia que estava faltando alguma coisa na música. Ele tentava explicar o que era, mas como sempre, nesse quesito ele era bem abstrato.

1966-1969 (21)Vixi! Agora John vai ter que pensar no que fazer em duas músicas! Passou uma semana e pelo menos resolveram o problema de A day in the life (nunca pensei que uma sessão com uma orquestra seria tão divertida!). Depois de resolvida esta parte, os Beatles gravaram outras músicas para o novo álbum. Eu estive presente em todas as sessões, e Good morning Good morning não foi mencionada em nenhum momento.

Eu ficava pressionando John, aquela melodia tinha ficado incrível demais para ser jogada fora, eu dizia para ele. John me xingava, disse que ele iria descobrir o que fazer logo. Três semanas depois ele teve a ideia: acrescentar metais. O problema é que John exigiu que “os metais não soassem como metais” (é nessa hora que tive pena de Martin e dos músicos). E assim foi feito.

Depois que os músicos foram embora, Paul fez um belíssimo solo de guitarra, daqueles cheios de energia, que Paul sabe muito bem fazer. Logo após o solo, John e Paul se juntam no microfone e começam a “brincar de cantar” fazendo os backing vocals de maneira surpreendente.

Para mim a música estava pronta. Estava tudo muito perfeito: os metais, a bateria, o baixo, os vocais, as guitarras. Mas para John sempre se pode fazer mais alguma coisa. Assim, ele bolou uma maneira diferente de terminar a música: com sons de animais. Amanhã voltaríamos e bastaria apenas acrescentar esses efeitos exigidos.

1966-1969 (1463)Depois disso, Good morning Good morning estava pronta. Eles sempre estavam se ultrapassando, sempre queriam ficar 100% satisfeitos com a música, independentemente do tempo gasto. Os dias dedicados àquela música valeram a pena, pois ela realmente deixou sua marca registrada através de sua inovação sonora.

Sgt. Peppers teve um impacto enorme na sociedade e na carreira dos Beatles. Para mim, eles iriam sempre estar melhorando (o tempo todo). Os Beatles podem ter acabado com as turnês, mas, sem dúvida, eles deram um grande show…

Por Mariana Alves

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4 Respostas para ““We hope you will enjoy the show…” – O processo criativo dos Beatles

  1. Belissima fan fix, uma idéia linda que ninguém pode tirar de nós. Criar situações nos colocando com eles, participando do sonho, de certa forma eliminando a grande frustração de maior parte dos fãs: não ter estado realmente lá. Então, num mundo imaginário, suprimos essa falta. Claro que cada um inventa de acordo com seus próprios desejos e por isso nem sempre funciona para os demais. Vira coisa pessoal. Mariana porém conseguiu nos mostrar um dia lindo na vida deles que soa real. Ela viu o processo criativo que bem sabemos ter sido exatamente assim. John via um caixa de cerais e compunha uma música. Paul via uma foto de uma senhora africana e compunha outra música. Sempre belas ou, pelo menos, revigorantes em nossas vidas. George não deixava por menos. E mesmo Ringo, mais baterista do que compositor, costumava nos brindar com verdadeiras joias. Ler essa belezinha de fan fix que reconhece o tanto que eles estava getting better all the time, logo pela manhã me deixou muito feliz. Obrigada Mariana.

    • Na verdade, esta foi minha intenção. Mostrar que das coisas simples eles tiravam o surpreendente, o inovador. Sgt Peppers é a prova concreta disso. Fico feliz que tenha gostado da história, é muito gratificante para mim. Saiba que eu admiro muito seus textos e sua história de vida!
      Abraços.

  2. Que texto incrível, Mariana! Simples e original, sem falar do quanto a fanfic soou real a mim. Retratou não só o John, como também Paul, George e Ringo direitinho! Essa fanfic me fez crer que foi assim exatamente assim que Good Morning Good Morning surgiu. Com John olhando para uma caixa de cereal e tendo mais uma grande ideia. O Sgt. é inovador, está no meu top 5 dos álbuns favoritos. De fato, eles tiravam ideias incríveis de coisas tão simples. Um comercial de TV, matérias de jornal, peças teatrais, livros… E escreviam um poema incrível e transformavam em algo totalmente inovador, nunca visto antes. Sempre se superando, sempre criando coisas novas, sempre surpreendendo a todos. Getting better all the time. Cada um com suas surpreendentes habilidades individuais, que juntas formavam algo tão incrível que faz com que reste poucos adjetivos para descrever. Genial.

    Abraços.

    • Fico feliz em saber que se identificou com a fanfic! Acho que todos somos muito diferentes, mas ao falarmos de Beatles, falamos em uma só língua e sentimos as mesmas coisas!
      Acredito de verdade que o sucesso de nossos queridos amigos se deve ao fato de que eles transformavam o costumeiro, o comum, em algo extraordinário! Isso atraia as pessoas da época e nos atrai até hoje. Uma frase simples como “Amanhã nunca se sabe” se transforma em “Turn off your mind, relax and float down stream” e em uma batida estridente e psicodélica! Um desenho de uma criança se torna Lucy in the sky with diamonds!
      Eles sempre faziam isso. Mas, nos primeiros álbuns eles compunham para agradar as fãs. A partir de Rubber Soul (o que o considero como meu álbum favorito-ainda em dúvidas), eles começam a deixar seu cotidiano mais explícito. Mas, sem dúvida, Sgt. Peppers é o mais evidente. Com poucas exceções, a maioria das músicas dele é baseada é algum fato real.
      Fico muito feliz que tenha gostado, de verdade! A aprovação de vocês é muito importante para mim!
      Abraços!

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