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“Fazendo favor, toque como Bach”

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Esses dias John está um pouco estranho. Dá pra notar que ele está bem cansado com tantas turnês. Como se não bastasse, ainda está trabalhando em mais um álbum. Eu em seu lugar já teria ficado maluca há muito tempo.

foto1Essa correria toda, eu presumo, deve estar deixando ele com saudade dos tempos em que ele era apenas um garoto comum de Liverpool que tocava em clubes de Hamburgo. Outro dia mesmo ele virou pra mim e disse que ficou anotando nomes dos lugares e das pessoas que ele frequentava a uns dez, nove anos atrás. Ele chegou a pensar em fazer uma música com aquilo, acabou desistindo “aquilo está muito enjoativo” ele me disse.

E eu, como sua amiga, sempre tive a obrigação de incentivá-lo “a ideia está muito legal, John, mostra para o Paul que ele pode dar uma ajuda”. Ele ficou me olhando durante um tempo, e respondeu secamente “não, vou ignorar isso, não quero que achem que sou um homem certinho, amoroso e delicado”. O que eu ia dizer? A coisa que ele mais temia é que essa imagem de “garoto travesso” sumisse.

Esses dias ele tem sempre me chamado para ver o que eles estão gravando, realmente, por incrível que pareça, os Beatles estão superando eles próprios! Na hora do chá, John sempre fica escrevendo junto com Paul. Acho que é naquela hora que a coisa começa a acontecer. Ele tira um papel do bolso e pisca para mim. Eu não acreditei, era aquela listinha que ele tinha feito alguns dias atrás!

Paul imediatamente pega o violão e alguns papéis. Parece que ele gostou. John começa a cantarolar como ele tinha imaginado a melodia. Quer dizer então, que depois do que conversamos, ele ainda ficou pensando na música. Aquela nostalgia toda estava mexendo com ele. Depois que terminaram a surpreendente canção de George, If I needed someone, John e Paul chamaram George e Ringo para mostrar o que já tinham composto com aquela listinha de nomes. E John me chamou para participar da conversa! Ele disse que se eu não achasse a música muito melosa, eles gravariam ali agora mesmo. Os Beatles gostavam de ouvir minha opinião, porque sabiam que eu estava sendo sincera.

Quando eles estavam gravando Mr. Moonlight, por exemplo, George tinha feito um solo à la Dr. Feelgood, perfeito. Mas George Martin achou muito estranho e preferiu colocar o órgão. Eu disse para os meninos: “mas o de Harrison está perfeito!” e fui conversar com Martin. Não adiantou, mas depois daquele dia, os Beatles me acharam muito corajosa, e começaram a sempre me chamar para as sessões.

foto2Aí John começa a cantar bem baixinho, com Paul fazendo os vocais atravessados. Imediatamente George pega sua guitarra e vai acompanhando, Ringo chega e toca de uma maneira delicada e suave em sua bateria. Eu dou um ‘beleza’ a eles e jogo um sorriso. Agora John canta de maneira mais convicta. E por incrível que pareça, ele nem estava lendo no papel. Ele sempre teve dificuldade de lembrar das letras, mas essa, ele está cantando com toda sua alma.

Depois de terminado aquele surpreendente ensaio, George Martin dá algumas instruções e eles começam a gravar apenas a parte instrumental. Parecia que eles já tinham planejado o que tocariam, a música tinha sido criada ali, diante de meus olhos, e ela já estava praticamente pronta!

A hora dos vocais sempre será emocionante e rápida. Ambos são muito afinados e raramente temos que gravar de novo por conta de um erro vocal de qualquer um deles. E lá estavam eles. John nos vocais principais e Paul dando ênfase no fim de cada verso. Um de frente para o outro, concentrados no que estavam dizendo, naquilo que essa música representava para eles. George estava ao lado, e tinha acabado de ter uma ideia de uma guitarra principal que poderia acrescentar à música. Grande George, suave e marcante sua guitarra. E Ringo estava atrás, tocando sua bateria de uma maneira tão marcante que deu uma ideia de leveza à música; de que tudo passa: a bateria de Ringo estava falando por ele. Naquele momento, eu percebi que a música não se tratava de John, se tratava deles. Muito antes de conhecê-los, eles passaram por maus bocados nos diversos lugares que frequentavam, mas também conheceram pessoas de bem, que fizeram eles chegarem até aqui.

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A maneira como eles se olhavam enquanto tocavam, mostrava a amizade que foi construída ali. A música nada mais era que a história de amor entre eles. E eles cantam a última parte de uma maneira maravilhosa como um grito de guerra, mostrando a certeza “in myyy life, I’ll love you more” era como se eles dissessem “em minha vida, nós amamos mais nossa amizade”. Assim, ao som de meus aplausos e choros, termina já o terceiro take deles.

Com quase tudo pronto estava faltando apenas uma pequena parte que John não sabia o que colocar. Mas isso não importava agora, era hora de comemorar. John me perguntou o que eu achei, e eu nem respondi, estava emocionada demais para dizer alguma coisa. Só dei um abraço em cada um e disse “se continuarem fazendo isso comigo, eu não venho ouvir vocês mais!”.

foto3No dia 22 de outubro, quatro dias depois daquela emocionante sessão, John me perguntou se eu já tinha me recuperado, que hoje iriam terminar a emocionante música nomeada agora de In my life. Fui assistir, é lógico. Martin tentou preencher os compassos usando um órgão Hammond, mas não deu muito certo. Mudaram de ideia e resolveram colocar um piano.

John só pediu uma coisa: que Martin tocasse como Bach. Instrução nada simples, mas não é que Martin deu um jeito? Ele tocou um trecho no estilo barroco e pediu que o engenheiro de som acelerasse o pequeno solo. Todos gostaram do resultado, tinha se encaixado perfeitamente à música! A melodia por si só, já fala o que a letra está querendo dizer. Sabíamos que essa música não seria um hit, nem pretendíamos que fosse. Porque In my life é algo para ficar guardado no coração daqueles que amam a banda e sobretudo no coração daqueles que a compuseram, e não para ficar na lista da mais tocadas.
E assim, é lançado o Rubber Soul, que por sinal teve grande sucesso e crítica. E já estão começando um novo projeto, pelo que já ouvi, vão me surpreender de novo, com uma tal de Here, there and everywhere

Por Mariana Alves de Araújo

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4 Respostas para ““Fazendo favor, toque como Bach”

  1. Qual amiga de Lennon escreveu esse trecho?

    • Ana, este texto é uma fanfic, ou seja, uma ficção criada por fãs, sendo assim, esta amiga é, vamos dizer, “imaginária”. Abraços.

  2. Você conseguiu captar toda a riqueza de In My Life em um só texto! Parabéns!

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