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O nascimento de Virginia McCartney (Parte II – conclusão)

Se você perdeu a primeira parte deste post, confira AQUI.

01

Devidamente iniciada na Beatlemania naquela bela tarde de janeiro de 1965, sigo com meus pais para casamento com recepção, coisa rara hoje em dia.  Na festa dou-me conta de algo já suspeitado e ali confirmado…

O visual dos Beatles ficava bem em nós mulheres.  Meus olhos se arregalam ao ver chegar uma jovem de tubinho vermelho com rosto semelhante ao de Paul e cabelo idêntico.  “Nossa, como você está linda! Esse corte pegou tão bem!” dizem as amigas. Ela comenta. “Pensei em fazer um terninho e vir de gravata. Mas achei que ficaria parecendo fantasia de Beatles”. Mal sabia que em pouquíssimo tempo as mulheres adeririam aos ternos. Eu tive o meu em veludo azul escuro.

02Naquela noite ninguém suspeitava disso, não existia a palavra “unissex” e androgenia nem em sonhos.  Mas na minha frente estava a prova que algo diferente estava acontecendo na moda e tudo por causa dos Beatles que se atreveram a usar longos – para homens – cabelos de franjas, ou mop tops, mantendo a britânica elegância dos ternos. Logo veríamos que as mudanças, graças a tal ousadia, iriam muito além da moda, entrando no comportamento e na revolução dos costumes. Estavam introduzindo um novo tipo de masculinidade que nossos pais nunca tinham imaginado.  Sim, nossos pais estavam assustados, porque a juventude parecia delirar com a novidade, para eles inaceitável.

Logo mais o cantor Roberto Carlos definiria bem como as mocinhas dos 60 pensavam.  “Só anda de minissaia. Está por dentro de tudo, só namora se o cara é cabeludo.” Naquela noite eu ignorava o futuro próximo, mas constatava algo inusitado, belo, chique… Sentia forte o clima das mudanças, enquanto perambulava sozinha tomando meu cuba-livre, observando.  Vejo quando uma prima senta-se ao lado da minha mãe dizendo: “Fiquei sabendo que você foi ver o filme dos Beatles… Gostou?” Resposta: “Menina, eu gostei. Eles cantam!” “Grande novidade. Então eles cantam”, penso comigo rindo por dentro. E entendo. “Além de serem tão adoravelmente atrevidos, lindamente revolucionários, também cantam”.

Dia seguinte viajamos para o Rio de Janeiro. Minha mãe, mais uma vez, surpreende. É ela quem me cutuca para mostrar. “Virginia! Olha ali!  O disco dos Beatles! Vamos comprar?” Era a trilha de ‘A Hard Day’s Night’. Claro que compramos. Venho de volta para Minas abraçada ao disco. Nova pausa em Belo Horizonte. Nova festa. A dona da casa vem me dizer. “Soube que você gosta dos Beatles! Então precisa conhecer minha filha, a Lô”. Leva-me para uma varanda nos fundos da casa onde três mocinhas conversam sussurrando, com ar de tédio. “Meninas, esta é a Virgínia de Montes Claros. Ela também é Beatlemaniaca.” Vi logo qual era  Lô por ser parecida com a mãe. Usava o corte de cabelo Beatles. Rosto muito sério, sem sorrir. Formalmente me estende a mão dizendo. “Muito prazer. Sou Lennon. E você?” Por segundos fico confusa. Como “sou Lennon”?  Logo entendo. Aperto sua mão e falo no mesmo tom. “Prazer. Sou McCartney.” “Que bom. Vai dar jogo! Carinne ali é Harrison e Marisa é Starr! Agora nossa festa vai começar.” Pede licença e sai com uma delas. Na volta trazem um toca disco e Whisky com Coca cola.  “É a bebida preferida dos Beatles”, diz Lô.  Eu provo e aprovo. O disco começa a girar: “It’s been a hard day’s night”…

03Dia seguinte, enquanto nos preparamos para a viagem de volta, fico pensando na festinha Beatles. “Será que poderei fazer algo parecido em Montes Claros? Será que entenderão quando eu disser que sou McCartney? Vão pensar bobagem, que reneguei meu sobrenome”. Continuo pensando. “Fiz um compromisso de dedicação, um voto de procurar viver de outra forma, de muita coisa que nem sei ainda. Entrei para o clube dos Beatles People! Foi como se minha alma tivesse tocado na alma de Paul. Preciso usar seu sobrenome. Eu sou McCartney. Entenderão?” Não importava. Eu entendia. Faltava selar o voto. “Papai, me empresta sua caneta”. Caneta na mão, disco no colo, suspiro… Então escrevo na capa: “Pertence à Virginia McCartney”.

Por Virginia A. de Paul (a)

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3 Respostas para “O nascimento de Virginia McCartney (Parte II – conclusão)

  1. Parabéns pelo texto Virgínia! Tenho apenas 15 anos e consigo me identificar muito com o que você escreve, e olha que vivemos em épocas bem diferentes! Jamais terei a sensação de pensar “qual álbum eles estão gravando agora?”, coisa que você vivenciou e muito bem. É muito bom saber que esses sentimentos permanecem vivos em você, e que, você não se limita a apenas a história dos Beatles, tem um amplo conhecimento também dos novos álbuns lançados pelo Paul e o Ringo! Nem preciso pedir que continue sempre assim, sei que isso irá sempre permanecer vivo em você! All we need is love and The Beatles!!!
    Beijos

  2. Obrigada pelo comentário, Mariana. Com Beatles é assim mesmo. Não há diferença de idades. Eu tinha sua idade quando vi a primeira foto deles! Agora estou com 66 “aninhos”. 🙂 Como você já percebeu, eu na verdade, escrevo sobre eles “in my life”. Enfim, sobre a influencia deles em minha vida, o que eu vivia aqui tão longe, mas tão perto ao mesmo tempo. Enfim, como era ser Beatlemaniaca à distancia, num tempo sem internet, com apenas um canal de TV e ruim, cheio de chuvisco, com pouquissimas publicações disponíveis. Mesmo assim eles chegavam direto nas nossas almas…nos quatro rincões do mundo.

  3. Nossa amei sua história.Como é bom saber do nascimento de uma Beatlemaniaca,ainda mais de uma viveu na epoca mesmo.Achei muito lindo.Meio que tambem me indentifiquei rsr.Aquela epoca foi muito boa mesmo,pena que eu não nasci na mesma rsr.Parabéns,amei o texto!Ah e prazer,sou Harrisson!kkk Beijos!

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