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O nascimento de Virginia McCartney (Parte I)

8662107950_0d433886db_c_largeAgosto 1964. Época que o vento varre nossas ruas. Recordo certa manhã de ventania especialmente forte. Revejo-me apreensiva a caminho de casa depois das aulas, caminhando devagar e segurando a saia. Eu e Leila, colega inseparável. Teríamos evitado o vexame se tivéssemos optado por ruas menos movimentadas. Mas era importante ver as vitrines, as revistas nas bancas, e os rapazes chiques fazendo ponto na Casa Ramos. Todos lembrando James Dean nas poses. Poderia compara-los também a Ringo, John, Paul, George, Pete e Stu… em Hamburgo! Eram bonitos, o creme de la creme da cidade. Daí nosso embaraço ao ver o vento brincando conosco ao passarmos perto deles.

BeatlemaniaAs pastas caíram no chão, seguramos as saias sem a sensualidade de Marylin Monroe e, encabuladas, nos encostamos à parede em frente à Cearense, loja de discos. – “Belarmina?” grita Leila – “Quem?” – “Ali na vitrine!” Começo a rir. “É Beatlemania! Não conhece ainda os Beatles?“ Não conhecia. Atravessamos a rua esquecidas do vento e dos rapazes. Faço a apresentação: “Leila, estes são os Beatles. Beatles, esta é a Leila!” Olha a foto atentamente e confessa: “Estou amando. Esse aqui é o meu. (George). Qual é o seu?” Não tinha ainda pensado que podia ter um deles para mim! Gostava dos quatro! “Vamos, escolha um!” Penso um pouco… e escolho Paul sem muita convicção. Em seguida vamos para minha casa a fim de ouvir o disco. Ali estava mais uma apaixonada sem conhecer as músicas! O que sentiria ao ouvi-los cantando? Acontece o esperado. Ela fica para o almoço porque temos de continuar ouvindo Beatles pela tarde afora…

Janeiro de 65. Chego a Belo Horizonte para o casamento de um primo. De lá seguiríamos para o Rio. Meu irmão Virgílio nos espera na estação. Vai logo dizendo: -“Amanhã começa um filme que você vai querer ver. Vai ficar na vontade. Não pode ir sozinha e ninguém vai te levar. É “Os Reis do Ié, Ié, Ié,” com os Beatles.” Não faço drama. Calmamente digo que esperaria até que o filme chegasse a Montes Claros. À noite vou ao cinema ver “O Professor Aloprado” com Jerry Lewis. Surpresa! Passam o trailer! Os Beatles sentados no que me pareceu ser latas de lixo. Vestem roupas escuras de frio. Capotes. Carinhas alegres, brincando uns com os outros e nos convidam para ver o filme. Só isso. Mas que impacto. Primeira vez vendo os meninos conversando. Impossível esperar. – “Mamãe, eu não posso perder esse filme”.- “Venho com você amanhã.” Eta mãe boa. Dia seguinte, às duas horas, estamos no Cine Acaiaca para a estreia de “A Hard Days Night”.

Beatles-Hard-Days-Night-1Cinema lotado, empolgação, eletricidade no ar. Apagam as luzes, abrem as cortinas…o filme começa. E vem aquele acorde. De repente, tudo que ainda estava preso, despenca. O som derruba os últimos tijolos do muro que me impedia de ter uma visão completa. O horizonte se alarga, a mente se expande, algo sobe desde o estomago e…é preciso sair, é preciso gritar! Gritos e mais gritos enchem o cinema. Eu sufocada. Fecho o grito por estar com minha mãe. Respiro fundo. Ali estão eles correndo das fãs e bem diferentes do que eu imaginava. Melhor! Devia ter desconfiado que seria assim. “I should have known better…” Cresce em mim a suspeita de que são de outro reino. Pois se caminham diferente, conversam diferente (o sotaque de Liverpool), dão entrevistas de forma diferente de tudo já visto antes…Não deviam ser da Terra!

Ouço um som de bongô.   Paul começa a cantar “And I love her”. O cinema desaparece! Resta a tela como que solta no espaço. Sinto-me só no mundo em frente ao… meu príncipe encantado! Os sinos tocam, estrelas brilham, entro em êxtase diante do que me parece ser a mais bela manifestação da natureza. Devia ser algum anjo. Mal respiro de puro encantamento. Eu e bilhões de mocinhas ao redor do mundo. A música acaba, volto a ouvir os sons à minha volta, o encantamento permanece. Certa hora penso que vou voar com eles na sequência de “Can’t buy me love’. E no final me pego dançando na cadeira enquanto cantam.
The End.

1.JPG37Levanto sabendo que algo impressionante tinha acabado de acontecer. Era como se eu tivesse sido iniciada em algum tipo de ritual. Antes do filme eu tinha sintomas, mas era apenas uma fã. Agora era, oficialmente, Beatlemaníaca! E como definir a Beatlemania? Um estado de espírito, uma adoração, uma alegria interna, um sentimento inexplicável, uma explosão de amor, também certo temor diante das emoções até então desconhecidas. “E agora?” Pergunto em voz alta pensando no que seria de mim. Minha mãe responde. “Agora é andar depressa porque temos um casamento para ir.” Volto à realidade assustada, coração disparado…Tinha dado meu primeiro passeio pela Beatles Land. Um lugar de pura magia que nunca mais deixei de visitar.

Por Virginia A. de Paul (a)

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3 Respostas para “O nascimento de Virginia McCartney (Parte I)

  1. Lourdes Barros

    Que texto maravilhoso!!! A descrição é perfeita.

  2. Thaíse Assis

    Mais um texto INCRÍVEL, Virginia!!! It’s real, yeah… it’s real Love.

  3. Lourdes e Thaise, muito obrigada! É uma viagem linda escrever sobre eles. Sobre o que significaram para mim e para meus amigos daqueles distantes anos 60! Que bom que gostaram.

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