Galeria

Trajetória de Paul McCartney é revista em nova biografia

Livro aborda os anos 70, período marcado por episódios tensos e libertadores.

2014-720628696-paul-7.jpg_20140605

Na van verde, espremiam-se músicos, roadies, crianças e até cachorros. Atrás, vinha um caminhão com os equipamentos da banda. Sem rota definida, saíram de Londres e seguiram todos rumo ao norte, até pararem em Nottingham. Chegando no campus da universidade, no final da tarde, um dos roadies foi até a secretaria e perguntou se haveria, por acaso, um local para uma apresentação da nova banda de Paul McCartney. Após a surpresa e o ceticismo inicial, o show foi marcado, às pressas, para o dia seguinte, na hora do almoço, no refeitório. Oitocentas pessoas, a maior parte alunos, testemunharam a estreia dos Wings, tocando um repertório de músicas dos discos “Wild life” e “Ram”, além de algumas covers. No final, os músicos dividiram o cachê, pago em moedas de uma libra. Sem viver uma situação parecida em muitos anos, Paul ficou emocionado com o que chamou de “dignidade do trabalho”. E voltou para a van (mais tarde substituída por um ônibus de dois andares, pintado de forma psicodélica). Afinal, em1972, o beatle tinha uma nova, longa e sinuosa estrada pela frente.

paul_3Depressão e insegurança – A cena simboliza muito do que é descrito no livro “Man on the run”, do jornalista escocês Tom Doyle, recém-lançado no Brasil pela editora Leya. Com o subtítulo “Paul McCartney nos anos 1970”, ele mostra um lado pouco conhecido do astro maior do universo pop, envolvendo um período subestimado em suas biografias anteriores. Deprimido com o fim dos Beatles, angustiado com as alfinetadas do ex-parceiro, John Lennon, e inseguro em relação ao seu próprio futuro antes mesmo de chegar aos 30, Paul bebeu e fumou (maconha) em excesso, abraçou um estilo de vida quase hippie, ao lado da primeira esposa, Linda, refugiando-se numa fazenda na Escócia, criou uma nova banda, fez excursões improvisadas, gravou alguns discos brilhantes (e outros nem tanto) e tentou, de todas as formas, se reinventar, mesmo com todas as câmeras apontadas para ele. Foi, como diz o título, um homem em fuga.

— Considero os anos 1970 um período fascinante na trajetória de Paul — diz Doyle, ex-repórter do jornal “The Guardian” e colaborador de revistas como “Mojo” e “Q ”. — Foi o momento em que um dos mais famosos e reverenciados artistas da história teve que, repentinamente, recomeçar a sua carreira. É uma situação impensável quando o vemos hoje em dia, mas como Paul me disse certa vez: “Imagine que você é um astronauta. Depois que você vai à Lua, o que você vai fazer no resto da sua vida?”. Nos anos 1970, após o fim dos Beatles, ele se sentia voltando da Lua.

9781846972393“Man on the run” nasceu a partir de uma série de entrevistas que Doyle fez com o astro para a “Mojo” e a “Q”, a partir de 2006, em torno do relançamento de sua discografia daquele período. Tendo pela frente um entrevistado naturalmente intimidador e tradicionalmente evasivo, Doyle teve que se esforçar muito para ganhar a confiança de Paul até revelar sua intenção de escrever a biografia, consentida, mas não oficial ou autorizada.

— Ele é um entrevistado muito esperto e bem treinado, que sabe se desviar facilmente dos temas polêmicos. Mas acho que, por eu ser escocês, ele foi se abrindo gradativamente até chegarmos ao ponto de termos conversas bem francas e agradáveis — lembra o autor. — Não gosto muito de biografias autorizadas, já que o protagonista tende, muitas vezes, a limpar seu passado e reescrever sua história. Mas Paul foi bastante gentil e nunca colocou empecilhos à feitura desse livro, chegando, inclusive, a ceder uma foto inédita dele, tirada por Linda, para a capa. Considerei isso uma prova de confiança.

Prisão no Japão e morte de John Lennon – No livro, Linda é lembrada como a pessoa que ajudou Paul a sair da depressão inicial e também como a tecladista inúmeras vezes criticada pela imprensa e pelos companheiros de banda.

paul_8— Linda foi a companheira que ajudou Paul a se reerguer. Foi quem esteve ao seu lado nos momentos difíceis. É emocionante ver como ele lembra os momentos dos dois juntos — diz Doyle. — Sobre as críticas, Paul achava que Linda foi como Ringo nos Beatles. Começou mal, mas evoluiu bastante.

Momento central daquele período foram as complicadas gravações de “Band on the run” — para muitos, o melhor disco de Paul — na Nigéria, em 1973, entre encontros com bandidos (que colocaram uma faca no pescoço do astro durante um assalto) e tensas negociações com artistas locais, como o mitológico Fela Kuti, nas quais o inglês teve de explicar que não roubaria a música deles:

— Paul teve ataques de pânico após o assalto, viu dois integrantes abandonarem a banda antes da viagem e ainda precisou esclarecer suas intenções frente a frente com Fela. Ironicamente, em meio àquele caos, gravou seu disco mais reverenciado.

Em contraste com aquele primeiro show em Nottingham, está a volta por cima com a apresentação dos Wings no Madison Square Garden lotado, em 1976, num breve revival da beatlemania, que incluiu até mesmo tietes como Jacqueline Onassis nos camarins (“Então, de repente, toda a fama voltou”, lembra Paul). A década da turbulência é encerrada com dois episódios marcantes para o astro, ambos em 1980: a prisão no Japão, no começo do ano, pela posse de 250 gramas de maconha (“Um gesto de autossabotagem”, afirma o autor) e o assassinato de Lennon, em dezembro, em Nova York. Foi quando Paul decidiu, enfim, parar de fugir de si mesmo e passou a viver uma vida (quase) normal. “A única anormalidade é ser Paul McCartney”, disse a Doyle.

Fonte: O Globo

Anúncios

5 Respostas para “Trajetória de Paul McCartney é revista em nova biografia

  1. Gostei muito, principalmente dessa frase: ”Se você foi à Lua, o que fazer no resto da sua vida?” Bem, Neil Armstrong foi, encerrou a carreira e viveu/morreu quase no ostracismo. Mas se você é anormal como Paul McCartney, a Lua será apenas um trampolim para o universo.

  2. Nossa, Jarbas. Falou bonito. É isso mesmo. Penso que o problema dele por algum tempo foi desacreditar em si mesmo. ” I’ll never make it alone”. Não foi nada fácil, tomou algumas decisões equivocadas como todos nós fazemos, mas recuperou o brilho. Eu confesso ter demorado a aceitar o Paul sem Beatles. Escreveu muita música sem graça, o que nunca aconteceu nem com John, nem com George. Os discos de Ringo eram melhores. Eu assustei porque nunca antes Paul tinha dado mancada musical. Em todo seu tempo de Beatle tudo que fez foi mágico. De repente…Mary had a Little lamb? Céus. Confesso que a do sapo eu gostei. rs rs rs. Mas ele surgiu com um ritmo nunca antes tocado enquanto Beatle.Brega! Como é que podia ser? Nem Band on the Run me cativou. E ainda tinha a voz sem graça de Linda para piorar. Algumas músicas seguiam até bem…de repente aquela voz sem tempero e …eu desligava o toca-disco para chorar. “Jesus, mataram mesmo meu Paul”, pensava chorosa. Meu amor incondicional me fazia comprar os discos assim mesmo, só para sofrer.Ai, eu peço desculpas a todos vocês que gostavam dele nesse tempo, dos Wings, de Linda. Não fico aborrecida por gostarem. Suplico que não fiquem aborrecidos comigo.. Estou apenas sendo honesta…Era difícil, eu não queria não gostar. Eu queria gostar muito, mas era impossível. Quase tudo que fazia me parecia xarope demais. E aquela imagem de marido exemplar de mentira me cortava o coração. Imagino o choque que levou ao ver a imagem fabricada cair por terra no Japão. Chega lá de esposa a tiracolo e os muito filhos nos braços…para ser levado pela polícia algemado… Maconheiro! Nossa, pegou muito mal. Se fazia passar pelo que não era. Meio hippie, diz o artigo. Meio? Totalmente hippie, como todos os Beatles. Claro, gente. A geração anos 60 era assim mesmo. A gente acreditava num sonho de paz e amor…com cheiro de marijuara pelo ar. Eu vivi isso. E foram eles, os Beatles, que abriram as portas para o verão do paz e do amor. Ele cantaram o Beautiful People e criaram o psicodelismo. Ser preso era consequência natural entre “anormais”. Para muitos de nós, o feio não foi ter sido preso. O feio foi querer passar a imagem de Mr Nice guy, de homem de família, fazendo com que pensassem que era exemplo de acordo com a caretagem no poder. O feio foi flertar abertamente com a extrema direita. Tenho amigos que bateram palmas aliviados com aquela prisão. “Ah, que bom. Paul ainda é Paul”, diziam. Com a prisão, virou ídolo novamente. rs rs rs,
    Hoje eu sou fanzoca número 1, mas porque sua música deu um grande salto. Hoje eu choro até de soluçar, mas de pura emoção. Isso mostra o tanto que ele cresceu. Creio que uma das razões disso é nunca ter renegado os Beatles. Ele ama tudo que fez naquele tempo e sendo assim consegue o milagre de trazer de volta o sentimento da Beatlemania em seus shows. Eu também consegui deixar de comparar. Consegui ver o Paul como Paul. Se eu comparar ainda vou ver diferenças porque nunca houve nada como Beatles. Sem comparar vejo um artista solo com seu próprio brilhante estilo. Sabendo de tudo que passou, do tanto que teve de se empenhar, numa época que ele era execrado, eu o admiro como ser humano ainda mais. Como diz meu amigo Ruy ” Você é gamada por Paul, hein?” Sim, eu sou. Orgulhosamente gamada por ele. Ele agora provou que está entre os melhores músicos do nosso tempo, quiça o melhor. O mais versátil e criativo. Um estrela de primeira grandeza que espalha muito amor e alegria por onde vai. Hoje ele carrega a tocha dos Beatles por merecimento. Abençoado seja.

  3. Lourdes Barros

    O Paul McCartney foi, é, e sempre será DEMAIS!!! Quando se ama incondicionalmente os defeios não existem. Que Deus o proteja sempre!!!

  4. O que acho bacaninha também é ele aparecer nos vídeos fazendo coisas inesperadas. Um vez vi paul ensinando fazer purê de batatas. E hoje eu vi um vídeo dele contando uma piada pornográfica. Pode? Que graça!

  5. Sertaneja, obrigado pelo comentário e pela aula de psicologia (ou seria Beatlelogia?). Vocês já assistiram a entrevista que Paul concedeu ao falecido Chris Farley no Saturday Night Live? Foi muito engraçada. Eis o link:
    http://mais.uol.com.br/view/iyzav0z95rah/paul-at-chris-farley-show-snl-04023464CC891386?types=A

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s