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“Com amor, dos Beatles, para nós”

“A banda mais revolucionária do Rock”, diz a Rolling Stone sobre os Beatles. “A noite que mudou a América”, é o nome do show em homenagem a eles nos 50 anos.   Duas comprovações de como, por merecimento, esses meninos se consagraram como os ídolos genuínos não só da geração anos sessenta como das demais que se seguiram.

1965 (1132)Não era assim em 1964. Numa entrevista de 66 para a BBC, Paul revela que só depois que cantores como Matt Monro começaram a gravar suas composições, a música dos Beatles foi reconhecida. Antes disso não lhes davam valor.

Aqui no Brasil eram sumariamente desconsiderados. Diziam que teriam duração efêmera pela baixa qualidade musical. O comentarista Túlio Cardoso os comparou ao Bambolê dando a eles no máximo dois anos de duração. Mas reconheceu serem possuidores do algo inexplicável sobre o qual comentei no meu primeiro texto. Disse assim: “Os quatro rapazes possuem na verdade um “não sei quê”, uma alegria pura e juvenil, diferente de tudo que já ouvimos em matéria de submúsica.” Ele gostava e não sabia! A rádio Jornal do Brasil, minha preferida, jamais tocava Beatles. Então, em dezembro, ouço uma belíssima música orquestrada. Fico ouvindo embevecida aguardando informações. Sempre diziam o interprete, nome da música e autor. Diz o locutor: Orquestra de George Martin, All my Loving, de Lennon e McCartney. Surpresa! A JB começava a entender.

O roteirista do filme “Goldfinger” deu o maior fora ao colocar o agente 007 dizendo que beber Dom Perignon acima de 38 graus centígrados é como ouvir os Beatles sem protetor de ouvidos. Só voltei a ver um filme de James Bond quando teve tema musical escrito por Paul McCartney, tema esse indicado ao Oscar. Paul ainda fez exigência: o tema seria cantado por ele.   O sucesso é a melhor vingança.

1964_beatlesEm 64 eu me perguntava: “Como não sentem o que sinto? Não sabem que algo extraordinário está acontecendo?” Eu não sabia explicar o que era. Mudava meus hábitos porque “não combinam com Beatles”. Eles não pediam isso. Mas eu sentia ser preciso. Fazer footing na pracinha? Nunca mais. Usar laquê nos cabelos? Nem pensar.

Até namorar de acordo com o figurino estava ficando impossível. Certa noite de Julho presencio algo curioso. Estou numa hora dançante que transcorre como todas as outras. Mocinhas esperando serem chamadas para dançar. Na pista alguns pares giram quase parados, rostos colados, ao som de Ray Conniff. De repente… “She loves you, yeah, yeah yeah…” Todos param de uma vez. Olham uns para os outros… parecem não saber o que fazer, como dançar “aquilo”. Mas não se atrevem a viver a música. Após alguns segundos recomeçam a dançar exatamente como antes. Fico de boca aberta. Falo para meu par que a dança teria de ser outra, mais animada, Ele nem responde e continua fingindo dançar. “Não estão prontos. Mas bem que levaram um susto”, penso rindo por dentro.

Amigas da JEC (Juventude Estudantil Católica) me olhavam estupefatas: “Eles são representantes do capitalismo selvagem! Estão alienando a juventude. Nós aqui com a ditadura temos de ouvir Geraldo Vandré!” É verdade que sofríamos desde o golpe de março. Eu me preocupava com os companheiros desaparecidos. Passei maus bocados com medo de ter de depor no DOPS. Felizmente decidiram que menores de idade não precisariam depor. É verdade também que Vandré cantava bem o que o Brasil vivia. Eu tinha seu disco. Mas não era verdade que a música dos Beatles nos alienava. Só que a revolução que vinha deles era de dentro para fora. Comportamental. Explico para elas que sem uma mudança interna de nada adiantaria mudar o governo. Tomar o poder e fuzilar pessoas? A lista dos que seriam fuzilados mostrada numa reunião de Realidade Brasileira tinha me deixado apreensiva. Não era o que eu queria. Não era o que eu sentia vindo dos Beatles. O que era então? Não sabia dizer!

1965 (1073)Certa tarde a rádio Bandeirantes apresenta o mais novo lançamento deles no Brasil: “The Beatles Again”. Escolhem uma música que me traz, de novo, a sensação de conhecê-la de algum lugar. “Jesus, de onde?” Meu inglês era fraco, mas entendo essa parte: “Just call on me that I will send you along with love from me to you!” Arregalo os olhos. É isso! Eles nos mandavam …Amor! O que precisássemos, fosse o que fosse, viria… com Amor! Diretamente deles para nós. E não era o Amor que era pregado nas manhãs de formação jecistas? Valeu uma carta às amigas terminando assim:

“Ouçam os Beatles sem preconceitos. Faz tanto bem!

P.S. I love you.”

Por Virginia A. de Paul(a).

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3 Respostas para ““Com amor, dos Beatles, para nós”

  1. Ansioso pelo próximo.

  2. Thaíse Assis

    Virginia, desconfio que você seja a minha alma gêmea beatlemaníaca. Quero muitos textos!

  3. Aqui para agradecer a Beatlepedia e Thaíse pelos comentários. Como sempre digo, escrever é bom, mas melhor ainda é saber o que foi escrito chegou até às pessoas, que apreciaram. Eu escreveria de qualquer forma porque é o que mais gosto de fazer. Mas seria algo egoístico…Muito importante para quem escrever ver alguma apreciação. Incentiva. Principalmente quando gostamos, como foi o caso do texto seu, Thaise. Um texto que nos levar a pensar. Mas pelo que vi…meu comentário não apareceu. Penso que já sei o que houve. Tive problemas técnicos recentemente aqui…Mas já foram resolvidos e vou comentar novamente.

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