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Os Beatles chegaram!

Vi recentemente pela CNN, no programa Larry King, nosso querido Ringo dizendo que a razão do sucesso dos Beatles é a alta qualidade da música. Discordo. É verdade que fizeram a melhor música do mundo. Mas para mim veio de bônus, porque a razão do sucesso tem origem inexplicável.

10Entendo que prefiram nem pensar nisso. Deve ser amedrontador saber que havia “algo mais”. Um algo mais com efeitos maravilhosos em alguns, mas assustadores em outros. Eles queriam ir “to the toppermost of the Poppermost”. Foram além. Tornaram-se o fenômeno revolucionário que mudou nossas vidas. O peso disso é incalculável. E a importância imensurável.

ph-bob-van-dam-the-beatles-1964Eu estava presente quando tudo começou, em lugar distante do epicentro, no sertão de Guimarães Rosa, norte de Minas Gerais. É que a magia dos Beatles espalhou-se por todo o planeta. Faço agora um retorno até 1964, dia 21 de maio, quinta feira. A “Cinelandia” traz matéria sobre a novidade do mundo da música: The Beatles. Vem foto deles vestindo terninho Pierre Cardin. Carinhas sorridentes. Cabelos grandes com franjas! Anéis! Botas de salto ligeiramente altos. Diziam servir para marcar o ritmo. O texto diz que meninas americanas tinham comido a grama onde pisaram. O que? A revista passa de mão em mão causando os mais diversos comentários. “Caras de bobocas”, diz meu pai. ” Não devem ser bobocas. Estão faturando alto! O cabelo é dos três patetas”, diz meu irmão. “Acho que são comediantes” conclui minha irmã. “Eu também quero ver”, diz nossa cozinheira Maria. “A mocinha é bonitinha!” , diz apontando para Paul. Risadas gerais. ” São todos rapazes, Maria. Mas devem ser afeminados,” imagina meu preconceituoso irmão. Minha mãe pergunta de onde são.” Ingleses? Bem que eu vi.” Até hoje não sei o que ela viu. “De Liverpool”, falo baixinho mais para mim do que para ser ouvida, tentando visualizar esse lugar cujo nome soou-me como música.

14Perdida na foto, sem saber a razão de estar tão enlevada, quero saber quem de fato seriam aqueles meninos com jeito infantil capazes de provocar tantas reações antes mesmo de abrirem as bocas. Ninguém ali tinha ouvido nenhuma de suas músicas. Tudo que digo é: “Gostaria de ouvir o disco!” No mesmo dia, durante a tarde, ligo a rádio Bandeirantes e ouço “I Want to Hold Your Hand”. Pego a música no meio mas soube de imediato que eram eles. Chamo minha irmã aos gritos. “São os Beatles cantando!” Ela vem ouvir… e tem uma crise de riso. Eu sinto uma espécie de Deja vu, como se conhecesse a música de algum lugar. Fico admirada ao ouvir o locutor informando no final: “Eles cantam, tocam e compõem suas músicas.” Bato palmas. Poucos dias depois vou com meus pais a Belo Horizonte. Meu irmão mais velho, estudante na capital, pergunta se conheço os Beatles. “Eu vinha caminhando pela Afonso Pena quando ouvi uma música “diferente”. Entrei na loja para saber quem eram. Vi a foto e gostei. Possuem um ar inteligente. ” Tal comentário vindo do meu irmão de gosto musical requintado, critico feroz do rock, comprova a existência do “algo mais”.

A música o atraiu, mas a foto foi fator determinante para sua apreciação. Nem mesmo o carisma (que todos os quatro possuíam em dose cavalar) seria suficiente para explicar isso. Como sentir carisma através de uma foto? No dia 27 de maio ainda estou em Belo Horizonte. Andando pelas ruas com amigas, ouço “She Loves You”. Cai como um raio sobre mim. Paro de andar e pergunto. “O que é isso?” “São os Beatles”, dizem as meninas enquanto pulam na calçada, celebrando. Novamente a sensação de já conhecer a música. Entramos na casa de onde vinha o som. Pegamos o disco emprestado. Resto da tarde dançando com eles. Eis o que escrevo no meu diário no dia seguinte: “O som dos Beatles é singular. Parece que conheço as músicas de algum sonho.

466642_1964-The-BeatlesNa capa do disco eles estão soltos no espaço. Embaixo vemos ruínas. Eles são exatamente isso. Nos convidam para adotar um novo estilo de vida, para vivermos soltos, livres.” Uma das meninas aponta para George e diz: ‘Lindo, não é?” “Maior pão da paróquia”, falo surpreendendo a mim mesma, pois não tinha visto beleza física nele antes. George não tinha mudado. Eu sim. Tinha, de repente, aprendido a ver beleza onde antes eu não via. O mundo todo parecia ter ficado mais bonito ao som dos Beatles.

16Voltando para Montes Claros no trem, olhando as primeiras estrelas no céu, sinto-me numa espécie de estado de graça. “Os olhos do Paul parecem estrelas… Eles não são comuns. Ah, não são nada comuns”.

Então dou-me conta de algo surpreendente. Esperava por eles há tempos… Começo a rir. Minha mãe pergunta a causa do riso. “Estou feliz, mamãe. Os Beatles chegaram!”

Por Virgínia A. de Paula

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6 Respostas para “Os Beatles chegaram!

  1. Thaíse Assis

    Que lindo, meu Deus!!! Estou chorando. É exatamente isso, transcendental. Um amor transcendental. “Seems like all I really was doing, was waiting foy you”.

  2. Lindo, eu não saberia descrever igualmente o sentimento que é ser fã dos beatles, o meu seria mais cômico possível rsrsrsrs.
    Parabéns mesmo,

  3. Lourdes Barros

    Eu concordo com o Ringo. São lindas canções de alta qualidade e tbém acredito que algo fenomenal aconteceu e acontece. O mundo ama e reverencia os Beatles e suas músicas.

  4. Virgínia, para quem não sabe, é a pessoa que mais entende a alma coletiva do Beatles. Ele descreve sobre eles como se fora uma amiga íntima de cada dos integrantes do quarteto. Elegância, charme, beleza, mistério, sensibilidade aguçada são atributos que a fazem se renovar, a cada texto que escreve sobre o maior fenômeno da música em todos os tempos.

  5. Luciano de Paula Fraga

    Texto primoroso. Não basta ser fã é preciso saber traduzir este sentimento. Parabéns.

  6. Acabo de conhecer os Beatles novamente: Muito prazer, John, George, Ringo e Paul !

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