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A história dos Beatles em Hamburgo – Parte III

Se você perdeu os dois capítulos anteriores, leia aqui: Capítulo I | Capítulo II
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“Para nós, foi um despertar sexual. Não tínhamos muito conhecimento prático antes de irmos para Hamburgo. Nosso batismo foi em Hamburgo porque era lá que estavam as garotas.” – Paul McCartney

Na primeira vez que estiveram em Hamburgo (16 de agosto a 01 de dezembro de 1960) acumularam 106 noites de apresentações. Os rapazes lutavam contra o cansaço desde o início de cada apresentação e precisavam ficar ligados. Para tanto, ingeriam grandes quantidades de bebidas alcoólicas (principalmente cerveja) complementadas por estimulantes (Preludin, Purple Hearts, etc).

As acomodações para dormir no Bambi Kino eram desumanas: sem calefação, sem chuveiros e sem janelas. Nesse ambiente agressivo e longe de casa, tiveram de aprimorar o repertório e presença de palco. Com tantas horas de show aprenderam a improvisar, evoluíram a identidade do grupo e melhoraram sensivelmente o uso de seus instrumentos.

Klaus Voormann, que os conheceu no Kaiserkeller, foi testemunha ocular de diversas situações engraçadas e muitas vezes degradantes. Veremos a seguir:

A ilustração acima, de Klaus, mostra a entrada principal do cinema Bambi Kino. A entrada secundária para os quartos dos Beatles estava situada na esquina oposta.

George Harrison em primeiro plano estava sentindo muito frio! Os quartos do Bambi Kino também não tinham aquecimento…

Paul e Pete Best foram presos cerca de 90 metros depois de deixarem o Bambi Kino. Eles não tinham autorização para trabalhar em Hamburgo e foram acusados da tentativa de provocar incêndio no Bambi Kino. A polícia levou-os para o Davidswache e manteve-os sob custódia.

Grosse Freiheit, uma das pequenas ruas de Hamburgo, lateral da Reeperbahn, por ironia traduzido para português significa “Grande Liberdade”.

Paul na cela em Davidswache aguardando a deportação.

John após uma longa noite tocando e bebendo, volta para as acomodações do Bambi Kino trôpego, com seu habitual cigarro na boca e encharcado pela chuva.

Em um determinado fim de semana, Klaus foi visitá-los. Ao entrar no quarto para falar com os rapazes, notou que John estava se fantasiando para alguma travessura. Ele estava de cuecas e camisa branca que, por alguma razão desconhecida, ele a vestiu de trás para frente.

Em seguida, também vestiu de forma invertida um casaco preto. Depois pegou um crucifixo e assim que o segurou começou a personificar um padre. Com o braço estendido, ele foi direto para a janela que dava para a rua Grosse Freiheit e, ajoelhando-se em um banco, inclinou-se para fora da janela e estendeu o crucifixo às pessoas na rua. Aumentando o tom de voz, continuou sua pregação misturando inglês com alemão ao povo que passava abaixo.

Existia um restaurante chinês muito barato chamado Chug-Ou, que era um dos favoritos dos rapazes. Alguns trabalhadores e músicos da área comiam lá, e eram atraídos pelas panquecas que eram o carro chefe do restaurante, mas, de uma forma geral, o lugar era freqüentado por idosos de St. Pauli, e, grande parte deles era formada por veteranos de guerra carregando as cicatrizes das batalhas. Paul recorda certa vez que um cliente “estacionou” a perna de madeira no canto do restaurante, enquanto tomava sua sopa no Chug-Ou.

John e Stuart a caminho para comer no Chug-Ou. O restaurante Chug-Ou, nesta figura, está situado onde o carro está estacionado. As poucas horas que restavam aos Beatles após tocar e dormir, eles passavam, sobretudo na rua, vagando de bar em café e de porta em porta com a maré de turistas sexuais, cambistas e ciganos que vendiam de tudo, de revistas pornográficas a diamantes.

Os Beatles tocavam muitas vezes até quatro, cinco ou seis da manhã aí iam dormir sempre que podiam. No final destes shows, os rapazes estavam extremamente cansados e muitas vezes tombavam direto na cama. No entanto, havia outros momentos em que o nível de adrenalina não permitia que isso acontecesse. Se ainda estivessem de pé, iam comer alguma coisa. Dessa forma, poderiam ir ao Harald, Chug-Ou, ou qualquer um dos muitos cafés existentes na área.

Certa vez, John pediu o café da manhã e sentou com Klaus no Chug-Ou. John estava bem no meio de uma história engraçada, com seu cigarro aceso, quando de repente parou de falar, resmungou alguma coisa incompreensível e deixou pender a cabeça em direção do prato que estava posto em sua frente. Klaus riu, pensando que era mais uma daquelas típicas piadas de John, mas a cabeça permaneceu imersa no prato e ele começou a ressonar. O alemão olhou em volta, sem saber o que fazer, estava mesmo preocupado que ele pudesse se machucar com a faca, que estava tão perto de seu olho. Quando olhou as cinzas se acumulando e caindo do cigarro aceso, que ainda estava seguro na sua mão resolveu deixá-lo do jeito que estava, pois sabia que iria acordar quando o cigarro queimasse seus dedos. Inevitavelmente isso aconteceu, John acordou, falou algumas dezenas de palavrões por causa de seus dedos queimados, e começou a comer seu Spiegelei (ovo frito) como se nada tivesse acontecido.

Os Beatles voltaram a Liverpool totalmente modificados e iriam começar uma nova fase profissional impulsionada pela experiência em Hamburgo.

Abordaremos no próximo tópico, o retorno dos Beatles a Liverpool e a segunda temporada para Hamburgo.

Bom início de semana a todos…

Por BeatleLado
@BeatleLado2

Fontes:

Internet:
Hamburg Days – Klaus Voormann Portfolio

Livros:
Can’t Buy Me Love – Jonathan Gould
The Beatles – Antologia
Hamburg Days – Klaus Voormann

Leia também:

A história dos Beatles em Hamburgo Parte I e Parte II

Todas as ilustrações nesse tópico são de autoria de Klaus Voormann.

5 Respostas para “A história dos Beatles em Hamburgo – Parte III

  1. Pingback: A história dos Beatles em Hamburgo – Parte IV | The Beatles College

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  4. Pingback: Quarrymen – Quando tudo começou! | The Beatles College

  5. Está impressionada com os desehos de Klaus. Não só pela boa qualidade como também por ele ter tido esse desejo de registrar o que se passava, como John dormindo sobre o prato, voltando encharcada para o Bambi Kino e Paul com seus belos olhos, retido na cadeia.

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