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48 anos da revolução do mercado fonográfico

– Matéria publicada em 15 de março de 2011 –

É muito difícil falar sobre a discografia dos Beatles sem ser repetitivo. Hoje, 41 anos após a separação, milhares de livros e reportagens já contaram sobre o dia-a-dia do grupo nos estúdios Abbey Road; onde realizaram a maior parte de suas gravações.

Por outro lado, existem novas gerações de fãs, que aproveitam das facilidades da tecnologia atual para entenderem a importância que o Fab Four teve na cultura geral do século XX.

Passados tantos anos da explosão da Beatlemania, para termos uma noção do impacto que o movimento causou no mundo, é necessário que se entenda um pouco sobre a maneira que os Beatles, juntamente com o empresário Brian Epstein e o produtor George Martin atuaram no mercado fonográfico da época; já que a indústria musical se renovava praticamente a cada lançamento da banda.

Sendo assim, é interessante começarmos falando do primeiro álbum dos Beatles, intitulado “Please Please Me (with Love Me Do and 12 others songs)”, lançado em 22 de março de 1963 e que serviu de base para uma das carreiras mais brilhantes da história da música.

George Martin, maestro e produtor do selo Parlophone, pertencente à gravadora EMI, foi quem percebeu o potencial do grupo e resolveu apostar nos Beatles, que já haviam sido recusados anteriormente por outras gravadoras. A ideia de Martin era transportar para o disco, o clima dos shows dos Beatles em Liverpool. Chegaram até a cogitar a hipótese de um álbum ao vivo, gravado no Cavern Club, local onde a banda tocava; mas a acústica não permitia uma gravação de qualidade. Sem contar o espaço, que era muito apertado, impedindo o uso dos equipamentos de gravação. Por fim, chegaram a conclusão de que o melhor seria uma gravação em estúdio, mas como se fosse ao vivo. Isso traria duas vantagens: A performance da banda, executando as canções como em um show e também o ganho de tempo,  já que a gravadora queria um LP o quanto antes, para aproveitar o embalo das vendas dos dois singles anteriores (o primeiro foi Love Me Do / P.S. I Love You e o segundo, Please Please Me / Ask Me Why).

Mesmo prevendo o sucesso que a banda seria, muito pouco foi investido por parte da gravadora que cedeu apenas 1 dia para gravarem o disco.  Apesar da dupla Lennon & McCartney ter um bom acervo de composições, o produtor George Martin optou por alguns “covers” de canções que eles já tocavam em Liverpool. Muito pouco “overdub” foi incluído às gravações, de forma que o disco foi produzido praticamente todo ao vivo, acrescentando apenas palmas,  piano e percussões em algumas faixas.

Ao fim de 16 horas, George Martin tinha material suficiente para um LP: 10 faixas, sendo 4 de composições de Lennon e McCartney. As 4 canções que haviam sido lançadas em singles (também de autoria de Lennon e McCartney) seriam incluídas ao disco, concluindo assim, as 14 faixas:

I Saw Her Standing There – (Lennon-McCartney)

Os Beatles abrem o disco e iniciam sua história com uma contagem. A canção escrita por Paul em 1962 tinha o título provisório de “Seventeen” e foi escolhida para abrir o disco, por se tratar de um belo rock, influenciado pelos grandes nomes dos anos 50, principalmente Chuck Berry (a linha de baixo é idêntica a “Talkin’ About You”, de Berry). A contagem de Paul não é do mesmo take. George Martin incluiu depois, na mixagem, por achar que era uma boa maneira de iniciar o primeiro disco do grupo.

Misery – (Lennon-McCartney)

Essa canção foi composta para ser gravada por Helen Shapiro, a jovem cantora que fazia turnês com os Beatles nessa época. O piano, tocado por George Martin, foi incluído após as sessões de gravação (overdub).

Anna (Go To Him) – (Arthur Alexander)

Belíssima balada que já havia sido gravada no ano anterior por seu próprio compositor, Arthur Alexander, grande nome do Rhythm & Blues e que John era fã.

Chains – (Goffin-King)

Composição de Carole King e sucesso com o grupo “The Cookies”. Foi gravada pelos Beatles com George no vocal principal. Ao todo, foram feitos 4 takes dessa música, mas o escolhido para o disco foi o primeiro.

Boys – (Dixon-Farrell)

George Martin também quis aproveitar a versatilidade de Ringo e incluiu esse cover que o baterista fazia antes mesmo de entrar para os Beatles. A gravação foi feita em um só take e trás um instrumental bem vigoroso.

Ask Me Why – (Lennon-McCartney)

Bela harmonia composta por John Lennon em 1962, inspirado em Smokey Robinson. A canção já havia sido lançada como lado B do 2º compacto, que tinha Please Please Me no lado A.

Please, Please Me – (Lennon-McCartney)

Faixa-Título do álbum e primeiro hit da banda. A canção com arranjo simples foi composta para ser uma música lenta, inspirada em Roy Orbinson, mas aconselhados por George Martin, acharam melhor acelerá-la. A harmônica (gaita de boca) incluída na gravação, se tornaria uma marca dessa primeira fase da banda. O título apresentava o famoso jogo de palavras que John tanto gostava de usar.

Love Me Do – (Lennon-McCartney)

Música composta por Paul e que já havia sido lançada como primeiro single da banda. No compacto lançado em 1962, Ringo toca bateria. Mas George Martin ainda não estava completamente satisfeito com o baterista e chamou Andy White, um músico de estúdio, para tocar o instrumento na versão que foi para o disco. Aqui, Ringo só toca pandeiro e por anos ficou magoado com George Martin pela falta de confiança.

P. S. I Love You – (Lennon-McCartney)

Composta para o lado B do compacto com Love Me Do, mais uma vez Andy White toca bateria e Ringo toca maracas (um instrumento de percussão). A baladinha cantada no estilo “Elvis” foi escrita por Paul em 1961, para uma namorada que ele tinha na época.

Baby, It’s You – (David-Bacharach-Williams)

Gravado originalmente pelo grupo vocal feminino “The Shirelles”. Aqui, Lennon faz o vocal principal numa belíssima interpretação e Martin acrescenta o piano após as gravações. Um de seus compositores, Burt Bacharach, viria a fazer bastante sucesso como cantor nos anos seguintes.

Do You Want To Know A Secret – (Lennon-McCartney)

Canção feita especialmente para o grupo Billy J. Krammer & The Dakotas, que colocou a canção em 1º lugar. Interpretada aqui por George, a música foi composta por John logo após seu casamento com Cynthia e inspirada nas canções infantis que sua mãe cantava para ele dormir.

A Taste Of Honey – (Marlow-Scott)

A única canção do álbum que apresenta “overdub” nos vocais foi composta por Bobby Scott Combo para o filme homônimo, lançado em 1961. Entrou para o disco por ser uma das favoritas de Paul na época em que faziam shows no Cavern Club. John odiava a canção e dizia que ela deveria se chamar “A Waste of Money” (um desperdício de dinheiro).

There’s A Place – (Lennon-McCartney)

Considerada a primeira composição mais “séria” da dupla, a música foi inspirada no disco “There’s A Place For Us” de Leonard Bernstein, com um clima mais “Rhythm & Blues”, presente em grande parte das composições de John Lennon.

Twist And Shout – (Russell-Medley)

O cover que os Beatles transformaram em um clássico do rock and roll. Martin a deixou para o final porque John certamente não conseguiria cantar mais nada após sua gravação. A música deveria sair perfeita logo na primeira tentativa, já que John estava com gripe e sem voz e dificilmente suportaria cantar outra vez. O resultado é um excelente rock and roll com Lennon praticamente gritando pra alcançar o tom da música.

Resumindo, “Please Please Me” é um retrato do início dos anos 60, recheado de baladinhas e Rhythm & Blues. Podemos considera-lo um excelente trabalho, tendo em vista a pressa e a falta de investimento por parte da gravadora.

O disco serviu para mudar o conceito que o mercado fonográfico tinha com relação aos LPs. Tudo girava em torno dos compactos, com apenas duas músicas; o que era muito mais fácil de divulgar e vender. Mas em pouco mais de um mês de lançamento, Please Please Me atingiu o 1º lugar nas paradas britânicas, permanecendo por 29 semanas. Era o início de uma nova fase para a indústria da música.

Por Edcarlos da Silva

Matéria originalmente publicada por Edcarlos da Silva na coluna “Discografia Comentada” do site “Beatles to the People“.

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33 Respostas para “48 anos da revolução do mercado fonográfico

  1. A coluna de discografia comentada é a minha preferida rsrsrsr
    Muito bem escrito, uma leitura gostosa de fazer. 🙂

  2. Muito bom. Quero ver até chegar no últim0 disco. xD

  3. Ed como sempre arrasando em suas análises que são sempre tão concretas e objetivas e é disso que o leitor Beatlemaníaco precisa.
    Sou fã das suas análises, hehehehe
    Parabéns mais uma vez pela matéria (:

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  22. Estou apreciando tudo aqui no site. Espero ter permissão para comentar também o que pode ser algum engano. Eu confesso não saber ao certo e pode ser que exista um disco de Leonard Bernstein chamado There is a place for us. Seria bom investigar porque talvez não exista tal disco. Bernstein , maestro e compositor, compôs as músicas da peça West Side Story levada na Broadway e que se tornou filme de grande sucesso vencedor de vários Oscares no início dos anos 60. Acho que em 61. Uma das canções da trilha chama-se “Somewhere” e a letra começa assim: ” There’s a place for us, Somewhere a place for us. Peace and quiet and open air. Wait for us somewhere”. Há forte possibilidade de que Paul tenha se inspirado nesse tema. Há diferença é que na música da peça o tal lugar ainda será alcançado no tempo certo. A música continua dizendo ” There’s a time for us.” Na música dos Beatles ele já pode ser acessado agora ‘when I feel low, when I feel blue.” O outro ponto cuja informação poderia ser melhor é quando dizem que Burt Bacharah tornou-se cantor de sucesso depois. Na verdade ele tinha uma orquestra e cantava raramente. Sua composições eram interpretadas principalmente por Dionne Warwick. Os seus discos eram instrumentais com ele cantado uma ou outra frase em pouquissimas faixas. Lembro dele cantando em This guy is in love with you. Eu tenho vários de seus discos e podemos contar nos dedos as faixas onde ele canta. Por isso seria melhor dizer que Burt Bacharah tornou-se um compositor – e não cantor – de grande sucesso nos anos 60. Concordam? Amei saber tantos detalhes que não sabia. Nossa, como foi possível um resultado tão bom em ritmo tão acelarado. Se não me engtano esse LP está entre os cem melhores de todos os tempos da Rolling Stone. Ou talvez de outra publicação.

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  33. Parabéns, Sertaneja. Você está absolutamente certa! Devo ser seu contemporâneo e com coincidentes gostos musicais.
    Partilho de suas opiniões e recomendo aos que produziram o texto considerar as informações esclarecedoras da comentarista.

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